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PROJETO FINANCIADO
PELA CHESF
Texto compilado
a partir de Documentos do PAX e redigido por Maria Cleonice
de Souza Vergne, Ana Cristina do Nascimento e Ailton Feitosa
Martins
O
SALVAMENTO ARQUEOLÓGICO DE XINGÓ
Documento 1
1997
UNIVERSIDADE
FEDERAL DE SERGIPE
REITOR:
Prof. Dr. José Fernandes de Lima
VICE-REITOR:
Prof. Dr. Josué Modesto dos Passos Subrinho
PROJETO
ARQUEOLÓGICO DE XINGÓ - PAX
COORDENADOR
GERAL:
Prof.
Dr. José Alexandre F. Diniz
COORDENADORES
TÉCNICOS:
Arqueóloga
Maria Cleonice de Souza Vergne
Arqueóloga
Suely Luna
Os
CADERNOS DE ARQUEOLOGIA, publicação seriada do Projeto Arqueológico
de Xingó, que têm por objetivo a divulgação de resultados
de pesquisas produzidas na área, contam com duas séries: 1)
Documentos, que publicam versões simplificadas de relatórios
oficiais do Projeto, e 2) Textos, que publicam trabalhos de
pesquisas independentes. de autoria de membros e assessores
do Projeto ou de outros pesquisadores.
1.
O DESENVOLVIMENTO DO PROJETO
A
pesquisa arqueológica do Xingó originou-se por desdobramento
de um projeto de localização e mapeamento dos sítios arqueológicos
do Estado de Sergipe. Em 1985, a equipe de pesquisadores do
Departamento de Sociologia e psicologia da Universidade Federal
de Sergipe localizou, no município de Canindé de São Francisco,
quatro sítios de registros gráficos nas proximidades do rio
São Francisco. Esse achado teria conseqüências futuras, a
partir do momento em que a Companhia Hidro-Elétrica do São
Francisco - CHESF decidiu construir uma nova usina hidrelétrica
em Xingó, cujo lago inundaria sítios arqueológicos já detectados
e outros a serem descobertos. Considerando o disposto na Lei
nº 3924, de 21 de Julho de 1961, que estabelece que toda área
programada para ser descaracterizada por obras de engenharia
deve ser submetida a um salvamento arqueológico para a avaliação
da área, realizando-se o resgate do acervo existente tendo
como meta uma contribuição para o conhecimento do patrimônio
arqueológico histórico e cultural do país, em 1988 essa companhia
firmou convênio com a UFS para realização do trabalho de salvamento
arqueológico da área.
A
equipe do projeto inicial (formada pelas licenciadas Maria
Cleonice Vergne, Suely Amâncio da Silva e Sônia Vitório, colocadas
à disposição da UFS pelo Governo do Estado, e coordenadas
pelo Professor Fernando Luís de Carvalho, do mencionado Departamento)
ficou encarregada do novo trabalho. No decorrer das pesquisas
a equipe foi sendo alterada, com saída de alguns de seus membros
e ingresso de novos. Todo o pessoal envolvido no salvamento,
independentemente da duração de sua vinculação, encontra-se
em lista anexa.
As
pesquisas forma iniciadas sob a supervisão do Prof. Dr. Igor
Chmys - então diretor do Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas
da Universidade Federal do Paraná -UFPR - pesquisador com
uma vasta experiência em arqueologia de salvamento no sul
do país, adotando-se os seguintes procedimentos.
·
Prospeção vertical e horizontal;
·
detectados vestígios arqueológicos de superfície, fazem-se
sondagens de 10 x 10cm para verificar as características das
camadas arqueológicas,
·
caso comprovada a existência de vestígios, realizam-se sondagens
de 1m2, com profundidade de 1m.
Ao
mesmo tempo em que assina convênio com a CHESF, a UFS consegue
estabelecer um outro com a Universidade Federal de Sergipe
de Alagoas, pelo qual ficaria responsável pelo salvamento
também na margem alagoana.
A
pesquisa sobre um impacto negativo da paralisação das dobras
de construção da hidrelétrica, que ocorreu entre meados de
1988 e setembro de 1990. Nesse ano, apesar de reduzidas as
atividades, a equipe dá continuidade a alguns estudos e tenta
insistir mais uma na sua própria qualificação. Nesse ponto,
destaca-se a contribuição de arqueólogos de outras Instituições.
Algumas atividades realizadas nesse período podem ser mencionadas:
·
mesa - redonda sobre "O Homem do São Francisco: Experiência
da Arqueologia", com participação das arqueólogas Suely
Amâncio da Silva (PAX-UFS), Sônia Maria Vitório (PAX-UFS),
Maria Tereza de Moura (UFMG) e Leila Almeida (UFBA). Promoção
do Departamento de Ciências Sociais da UFS,
·
exposição sobre a Arqueologia de Xingó, na inauguração do
Núcleo Museológico da UFS,
·
Exposição com o tema: "Projeto Arqueológico de Xingó
e suas evidências", na sede da CHESF em Recife, durante
as comemorações da Semana do Meio Ambiente,
·
Curso sobre "Tecnologia Lítica", em Xingó, ministrado
pelo Prof. Dr. André Prous (MHN/UFMG), para arqueólogos e
estagiários da UFS e UFBA.
A
partir de 1991, a pesquisa retomou o ritmo normal, sendo prospectados
terraços, platôs, paredões e abrigo ao longo do canhão a montante
da fatura barragem e de 60 pequenos riachos, afluentes do
São Francisco, sendo 25 deles em Alagoas, 26 em Sergipe e
9 na Bahia.
A
partir dessa fase, mudam-se os procedimentos , passando-se
a adotar a linha metodológica preconizada pela Fundação Museu
do Homem Americano - FUMDHAM, já utilizada com êxito por outros
centros de pesquisa arqueológicas do Nordeste. A equipe de
escavação foi treinada pela FUNDHAM, que forneceu também orientação
metodológica e consultoria. A Universidade Federal da Bahia,
através do Instituto da Geociências, participou ativamente
como consultoria em sedimentos e estratigrafia. A Universidade
Federal de Pernambuco, através do Núcleo de Pesquisas Arqueológicas,
forneceu consultoria para as análises do material cerâmico.
A Universidade Federal de Minas Gerais participou da orientação
metodológica na área dos registros gráficos. A pesquisa contou
com o apoio logístico da PROMON - Engenharia Ltda., a Companhia
Brasileira de projetos e Obras - CBPO e a CHESF.
Todo
o trabalho foi acompanhado da itensificação de cursos, aulas
práticas, estágios e consultorias técnicas especializadas.
Entre 1990 e 1996, foram consultores do projeto:
·
Prof. PHD José Maria Landim Dominguez (sedimentólogo) e Prof.
Arno Brichta (estratígrafo) - GEO-UFBa (1992 e 1994):
·
Prof. Dr. André Prous (UFMG)- consultoria sobre Arte Rupestre,
Lítico e Fauna (1993),
·
Profa. Dra. Niéde Guidon (FUNDHAM)- consultoria sobre metodologia
de campo (1990 e 1993),
·
Arqueólogo MS. Emílio Fogaça e arqueólogo Márcio Alonso Lima
(MHN/UFMG), consultorias sobre material lítico (1994),
·
Arqueólogo MS. Suely Luna e Ana Nascimento (NEA/UFPe)- consultoria
sobre material cerâmico (1994),
·
Profa. Dra. Evelyne Pyere (Antropóloga Física) e Dra. Bernadete
Arnaud (arqueóloga)- curso de teoria e prática em Antropologia
(1992),
·
Profa. Dra. Nívea Leite - consultoria geral (1996).
Com
a finalidade de divulgar a pesquisa, membros da equipe do
PAX participaram e apresentaram trabalhos em reuniões da Sociedade
de Arqueologia Brasileira (1989 e 1993), seminários da CHESF
e outros eventos, além de produzirem informações divulgadas
em folders e jornais do Estado e do país.
O
fechamento da barragem, ocorrido em 1994, encontrou o salvamento
plenamente realizado, com a retirada e catalogação do material
lítico, cerâmico, fauna, ossos, fogueiras, esqueletos completos
e sedimentos de 41 sítios a céu aberto, identificados nos
terraços. Também haviam sido transcritos gravuras e pinturas
rupestres identificadas em 15 sítios localizados em abrigos
dos paredões do canhão.
No
segundo semestre de 1995 novo convênio é firmado com a CHESF,
a fim de permitir a análise do acervo coletado, e a PETROBRÁS
passa a se envolver no Projeto Arqueológico de Xingó, financiando
a continuação das pesquisas até a foz do São Francisco.
No
final desse ano, assume a coordenação dos trabalhos a Arqueóloga
Maria Cleonice Vergne, devidamente autorizada pelo Reitor
da UFS, Prof. Luís Hermínio de Aguiar, trabalha em parceria
com a CHESF na implantação de uma pequena unidade museológica
em Xingó, o ECOMUSEU, que posteriormente, pudesse se constituir
no embrião de um verdadeiro museu.
A
inauguração do ECOMUSEU foi pivô de uma crise no interior
do projeto, culminando com o afastamento da Coordenadora e
a designação de um novo coordenador administrativo, Prof.
Jônatas Menezes que, posteriormente, será sucedido pelo Prof.
Ulisses Neves Rafael. A coordenação técnica dos trabalhadores
fica sob a responsabilidade da Arqueóloga Suely Amâncio da
Silva. Essa crise afeta o ritmo de trabalho da equipe, que
prossegue, lentamente, os serviços de análise inicial dos
materiais lítico, cerâmico e da fauna.
Seguidas
manifestações do Departamento de Ciências Sociais, que havia
assumido o projeto, solicitaram uma avaliação científica dos
procedimentos e do material da pesquisa. Por designação do
novo Reitor, Prof. Dr. José Fernandes de Lima, uma comissão
formada pelos Professores Doutores José Luís de Morais (MAE-USP)
e Tânia Andrade Lima (MN-UFRJ) efetuou a citada avaliação,
apontando alguns problemas e suas soluções, mas se empenhando,
muito mais, em recomendações para a continuidade dos trabalhos,
levando em conta a importância do Projeto para a Universidade
e para o conhecimento arqueológico do Nordeste.
A
Universidade, assim, partiu para uma reestruturação do Projeto
seguindo as recomendações da mencionadas avaliação, mantendo
as consultorias, instituindo uma Coordenação Geral e vinculando-se
diretamente à Vice-Reitoria da UFS. Foi renegociado o convênio
com CHESF, a fim de ser possível a conclusão dos trabalhos
até janeiro de 1998; definiu-se uma nova equipe de trabalho;
os diversos relatórios existentes foram revistos e compatibilizados;
as assessorias foram restabelecidas e novos contatos firmados
para elaboração de análises específicas dos materiais disponíveis:
programou-se a realização de 1º WORKSHOP de Arqueologia de
Xingó, considerando o locus privilegiado para, numa criação
coletiva, estabelecer as primeiras conclusões sobre o homem
e a ocupação humana do Baixo São Francisco.
2.
A ÁREA DE ESTUDO
A
área de estudo compreende parte do pediplano sertanejo, que
se caracteriza por apresentar uma superfície pediplanizada
e relevos dissecados em colinas, cristas e interflúvios tabulares.
Até cerca de 10km a montante de Xingó predomina um relevo
dissecado, transformando-se em superfície tabular erosiva
a partir daquele ponto.
Nessa
área, o rio São Francisco corre um canhão bastante estreito
compreendido no trecho entre Paulo Afonso e Xingó. Esse canhão,
escavado no embasamento cristalino, possui desnível de cerca
de 100 a 150 metros no topo da superfície aplainada. É bastante
estreito (cerca de 100 a 300 metros de largura), apresentando
paredes íngremes (declividades superiores a 45º) e extensas
ravinas formadas por afluentes temporários de ambas as margens.
Descontinuamente, ao longo do canal, ocorrem terraços arenosos
com altura média de 15 a 25 metros acima do nível do rio.
Tais terraços são, via de regra, estreitos e posicionados
na junção do rio principal e os pequenos afluentes. Em média,
esses terraços são constituídos por cerca de 60% de sedimentos
de areia muito fina (diâmetro de 0,125 e0,0062 mm) e 40% de
lama (com predomínio essencialmente da fração silte, logo,
com muito pouca argila). Em função disso, os terraços constituem
substratos com porosidade elevada e permeabilidade moderada,
o que favorece a percolaçaõ das águas pluviais.
Embora,
na maioria dos terraços, os sedimentos se apresentam com aspecto
maciço, encontram-se estruturas sedimentares com ondulação
do tipo cavalgante, organizadas em "sets" com espessura
máxima em torno de 40 cm e com ângulo de cavalgamento em direção
ao topo. Mesmo terraços em que os sedimentos apresentam aspecto
maciço, é possível diferenciar níveis de coloração mais escura,
ricos em matéria orgânica, que podem tratar-se de paleossolos.
A espessura média das camadas para ambas as situações varia
de 40 a 70 cm. Nas porções dos terraços próximos às paredes
do canhão são encontrados níveis de grânulos e seixos muito
angulosos e mal selecionados, cuja composição é semelhante
à das litologias dessas paredes. Muitos desses terraços foram
utilizados pelos homens pré-históricos, sendo assim, privilegiados
como locais de prospecção dos possíveis sítios arqueológicos.
O
clima da área é do tipo mediterrâneo, que e semi-árido mediano,
com sete a oito meses secos, de agosto a março. A precipitação
total é inferior a 500 mm anuais. Nessas condições climáticas
desenvolve-se predominantemente uma vegetação de caatinga
hiperxerófila arbustivo-arbórea, sobre solos arenosos e rasos,
com ou sem afloramento rochoso, nas proximidades da calha
do rio. Há manchas de caatingas arbórea, que já foi o tipo
de vegetação representativo da maior parte da área estudada.
A ação do homem reduziu drasticamente sua extensão, estando
atualmente restrita a pequenas áreas em Delmiro Gouveia, Olho
d água do Casado (AL) e Canindé de São Francisco (SE), além
de ocupar trechos próximos às margens do rio São Francisco.
Essas
condições ambientais tornaram penoso o trabalho de prospecção
e escavação dos sítios arqueológicos, quer pelo rigor climático
e pelas características da vegetação, quer pelas dificuldades
de acesso aos terraços, exigindo intenso deslocamento fluvial.
3.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Os
métodos e técnicas para escavação e sondagens utilizadas no
PAX a partir da orientação da FUNDHAM são baseada em duas
escolas diferentes a inglesa, representada por Mortiner Wheeler,
e a francesa, com André Lerói-Gourham, o primeiro com o princípio
de leitura vertical, priorizando a estratigrafia através de
bermas ou muros-testemunhos, e Leroi-Gourham dando orientação
para leitura horizontal, com a observação dos solos de ocupação
e distribuição especial dos vestígios arqueológicos em detrimento
de estratigrafia.
Entretanto,
a partir da década de 50, Wheeler começa a trabalhar os dois
métodos, por entender que existe uma relação homem-meio que
não poderia ser lida distintamente.
As
técnicas de registrar coletar, utilizar o sistema Alfa-numérico,
diário de campo e registro fotográfico são comuns e admissíveis
aos dois, mas as técnicas não param por ai; o xadrez, a utilização
de setores de 4 x 4m com profundidade de 4m, trincheira paralelas,
entre outros, seguem ainda os autores. No entanto, deve-se
destacar que, mesmo com técnicas e métodos prontos, o arqueológico
e/ou pesquisador deve perceber os limites das técnicas e métodos
de leitura, podendo assim adaptar ou criar outros com rigor
científico.
A
seguir são apresentados, em terraços gerais, os procedimentos
de prospecção, sondagem, escavação e catalogação do material
coletado.
3.1 PROSPECÇÃO
Nesta
fase final decidiu-se optar pela realização de um levantamento
integral da área a fim de poder contar com um verdadeiro inventário
exaustivo de todos os sítios que apresentaram indícios de
vestígios arqueológicos.
Os
procedimentos adotados incluem pesquisa bibliográfica, trabalho
de campo e trabalho de laboratório.
Para
estabelecer a estratégica do trabalho de prospecção, foram
realizadas as seguintes atividades:
a) levantamento de informações bibliográfica
sobre a região, realizado nas Bibliotecas, Arquivos Públicos,
Institutos Históricos e Geográficos, Universidade Federal
de Sergipe e da Bahia, na Fundação Museu do Homem Americano
e no Setor de topografia da Companhia Hidroelétrica de São
Francisco - CHESF, em Xingó;
b) estudo das cartas aereo-fotogramétrica
na escala 1/5.000 e das cartas topográficas contento as cotas
níveis do espelho d´agua que atingiria o reservatório da Usina
Hidrelétrica de Xingó. Este último documento foi confeccionado
pela CHESF;
c) análise das informações fornecidas
pelo sobrevôo da região a ser prospectada. A investigação
aérea possibilitou o reconhecimento da área como um todo,
permitindo estabelecer o conjunto de restrições que deveriam
ser consideradas na formulação do plano de trabalho, em especial
no referente às modalidades de acesso, terrestre e fluvial.
A partir dessas informações, levantadas nos documentos e no
reconhecimento aéreo da zona de estudo, foram iniciados os
trabalhos de prospecção.
Os
sítios arqueológicos foram identificados segundo os seguintes
critérios:
1) Identificação de terraços que podiam
ter abrigado ocupações humanas, ao longo do rio São Francisco
e dos seus afluentes;
2) Presença de vestígios arqueológicos
de superfície;
3) Identificação de abrigos sob rochas,
que apresentavam vestígios d pinturas ou gravuras.
No
plano d documentação realizada durante o trabalho de campo,
foram realizados registros fotográficos sistemáticos segundo
uma cadência das equipes de prospecção.
Os
sítios descobertos foram submetidos aos seguintes procedimentos
de registro:
1) fotos coloridas;
2) posicionamento dos sítios vinculado
ao levantamento topográfico geral da área do reservatório;
3) realização de croquis dos sítios
e da área circundante;
4) preenchimento das fichas descritas
dos sítios.
No
plano da estratégica de prospecção, a equipe procedeu da seguinte
maneira:
1) tomou-se como eixo condutor o rio
São Francisco, desde a Usina Hidrelétrica Paulo Afonso IV,
até a Usina Hidrelétrica de Xingó, área compreendida entre
37º de longitude oeste 9º 30º´/9º 40´de latitude sul. Os trabalhos
foram iniciados a partir do local onde seria implantado o
eixo da barragem até Paulo Afonso IV, numa área de 81,40km2,
2) este percurso foi dividido em três
partes, tomando como base as características geomofológicas;
3) a investigação terrestre foi realizada
apenas seguindo as margens do rio São Francisco e dos riachos
afluentes. Foi necessário limitar o deslocamento através do
rio após a cachoeira do Topo, por tratar-se de um curso de
água entre as paredes do canhão, intercalado por áreas mais
abertas nas quais estavam assentados os terraços e foz de
riachos.
A
prospecção teve como resultado a identificação de possíveis
95 sítios, que foram posicionados topograficamente, sendo
80 a céu aberto, em terraços e 15 nos paredões.
Toda
área existente entre a Hidrelétrica de Paulo Afonso IV e,
a Hidrelétrica de Xingó está compreendida dentro de um canhão.
Nela foi possível distinguir três áreas diferentes. Duas destas
áreas estão separadas por um terceiro intermediário que, morfologicamente,
apresentam um maior estreitamento do vale. Essa morfologia
diferente das três áreas impõe condições de acesso exclusivamente
pelo rio, de barco. Entre a Hidrelétrica de Paulo Afonso IV
e a área 1, é possível navegar com dificuldade, em razão das
fortes corredeiras, tornando-se, no período chuvoso, preferível
deixar o barco e andar pelas margens até o sítio, tal é a
força da correnteza. Da área 1 à área 2 ocorrem pequenas corredeiras,
possível de enfrentar de barco. Da área 2 para a área 3 o
acesso é feito sem maiores dificuldades. Em cada área o restante
do trabalho foi feito a pé.
ÁREA
1
A
área 1 ocupa áreas dos Estados da Bahia, Alagoas e Sergipe.
Inicia-se a jusante da Hidrelétrica de Paulo Afonso IV e determina
na divisa Bahia/Sergipe, no riacho Xingozinho. Essa área perfaz
21.59km2.
Nessa
área temos o primeiro macro-ecossistema inserido na formação
geológica da planície pré-cambriana. O perfil geomorfológico
indica uma área formada de terraços, nas curvas do rio. A
presença desses terraços ocorre nas margens baiana e sergipana,
não existindo na margem alagoana.
ÁREA
2
Abrange
os Estados de Alagoas e Sergipe, situado entre o riacho Poço
Verde e o riacho Talhado, com uma área de 22,11Km2.
Esse
macro ecossistema encontra-se inserido na falha da bacia sedimentar
da formação Tacaratu sobre o pré-cambriano. Nessa área nota-se
a presença de terraços de beira rio no Estado de Sergipe e
de abrigos nos afluentes existentes nas duas margens.
ÁREA
3
Está
situada nos Estados de Alagoas e Sergipe, entre o riacho Vitória
Régia e o eixo da Barragem da UHE e de Xingó, correspondendo
a um área de 37,70km2.
Este
macro ecossistema está inserido na superfície pré-cambriana,
apresentando terraços nas margens alagoana e sergipana.
No
Estado de Alagoas e no Estado de Sergipe foram identificados
vários sítios, pois nessa área existem os indicadores da maior
ocupação humana.
3.2 SONDAGEM
Entende-se
por sondagem a escavação feita numa área limitada, escolhida
em um setor do sítio, de acordo com as informações que se
buscam. As técnicas de escavação utilizadas são as mesmas
utilizadas nas escavações de grande superfície. A finalidade
é poder visualizar o perfil estratigráfico do sítio identificar
o seu potencial arqueológico através da descoberta de vestígios
da cultura material.
A
partir dos dados fornecidos pela prospecção, foram selecionados,
58 sítios a céu aberto para etapa de sondagem, tendo em vista
um maior potencial em relação aos prazos disponíveis para
o salvamento. Considerando o volume de trabalho, foram criadas
7 equipes de campo, com atividades simultâneas.
Para
a realização dessas sondagens, utilizaram-se as técnicas de
decapagem por níveis artificiais, sendo realizadas nos sítios
a céu-aberto, situados nos terraços à beira do rio São Francisco
e seus afluentes. As sondagens foram feitas na totalidade
dos sítios identificados para se obter a maior quantidade
de informação sobre o contexto arqueológico regional.
No
plano metodológico, optou-se pelo procedimento de trincheiras
ao invés do sistema de áreas de 2 x 2m. As trincheiras são
áreas com uma largura mínima de 2m por um comprimento igual
ao terraço, o que permite uma maior exploração e a obtenção
de uma macroscópica do sítio sondado. Este tipo de sondagem
fornece informações sobre o processo de formação geológica
dos sítios, pois a escavação realiza-se até atingir um embasamento
rochoso ou limite do lençol d'água. A aplicação desse procedimento
permitiu, também, fazer um estudo comparativo entre os sítios
escolhidos. Posteriormente, os resultados desses estudos comparativos
puderam ser confrontados aos resultados das escavações integrais
feitas nos sítios selecionados.
Os
trabalhos de sondagens foram realizados com as seguintes técnicas:

Foto 1 - Escavação
do Sítio Justino
Foto 2 - Escavação
do Sítio Justino

Foto 3 -
Escavação do Sítio Justino
1)
abriram-se trincheiras paralelas e transversais ao rio ou
riacho, de 2m de largura pela extensão do terreno, que virou
de 5m a 75m;
2)
as decapagens foram realizadas por níveis artificiais;
3)
os vestígios achados formam plotados, etiquetados e retirados;
4)
todos os níveis das sondagens foram registradas fotograficamente
(grande maioria em fotos coloridas; poucas em preto e branco);
5)
os cortes estratigráficos foram levantados;
6)
foram recolhidas amostras de sedimentos para análise granulométrica;
7)
as amostras de carvão foram recolhidas dentro de fogueiras
estruturas ou não estruturadas.
3.3 ESCAVAÇÃO
Os sítios Justino
e o São José II foram objetivo de sondagem para avaliação
do seu potencial arqueológico. A sondagem levou à descoberta
de esqueletos humanos completos, o que tornou necessário a
realização de uma escavação sistemática de toda a área do
terraço, o que permitiu o resgate de uma grande quantidade
de vestígios arqueológicos de grande valor científico.
Os procedimentos
utilizados para a escavação foram os seguintes:
1)
limpeza da área;
2)
levantamento topográfico, altimétrico e planimétrico;
3)
estabelecimento de um sistema de referência através de um
quadriculamento de 5 x 5m;
4)
decapagem por níveis artificiais, definida segundo a técnica
de Wheeler;
5)
ampliação da escavação, abrangendo toda área e atingindo o
embasamento rochoso;
6)
plotagem dos vestígios encontrados;
7)
levantamento do perfil dos cortes deixados pela escavação;
8)
desenho dos planos dos enterramentos e das fogueiras;
9)
realização dos cortes estratigráficos;
10) levantamento
topográfico dos sítios e dos vestígios in situ;
11) engessamento
dos enterramentos para posterior escavação em laboratório.
A título de
demonstração as figuras 2.1 e 2.2 mostram planos topográficos
do Sítio Justino.
3.4 CATALOGAÇÃO DO MATERIAL
O trabalho
de catalogação pode dar subsídios para melhor e maior conhecimento
da área que está sendo estudada. Partindo dos percentuais
gerais dos sítios, da localização dos vestígios, através das
fichas de análise do material cerâmico (observação da técnica
de manufatura, tratamento externo, tratamento interno, aditivo...);
do lítico, a tecnologia e a matéria prima mais utilizadas;
da fauna, os animais mais utilizados para moer.
Os procedimentos
aplicados para a catalogação de todo material foram os de
listar os vestígios por sítios, nível, quantidade, e separar
todo tipo de material (cerâmico, lítico, fauna, fogueira,
ossos, sedimentos, sedimento de trado, ocre...). Para o material
cerâmico e lítico foi feita uma classificação.
Para a catalogação
e classificação do material por sítio, nível e, posteriormente,
quanto à matéria prima, tipo de lascamento, dimensões (comprimento,
espessura e largura), córtex e suporte.
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