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BIBLIOTECA
MUSEU DE ARQUEOLOGIA DE XINGÓ

PROJETO FINANCIADO PELA CHESF

 

Texto compilado a partir de Documentos do PAX e redigido por Maria Cleonice de Souza Vergne, Ana Cristina do Nascimento e Ailton Feitosa Martins

 

O SALVAMENTO ARQUEOLÓGICO DE XINGÓ

 

Documento 1                                      1997

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

REITOR: Prof. Dr. José Fernandes de Lima

VICE-REITOR: Prof. Dr. Josué Modesto dos Passos Subrinho

 

PROJETO ARQUEOLÓGICO DE XINGÓ - PAX

COORDENADOR GERAL:

Prof. Dr. José Alexandre F. Diniz

COORDENADORES TÉCNICOS:

Arqueóloga Maria Cleonice de Souza Vergne

Arqueóloga Suely Luna

 

 

Os CADERNOS DE ARQUEOLOGIA, publicação seriada do Projeto Arqueológico de Xingó, que têm por objetivo a divulgação de resultados de pesquisas produzidas na área, contam com duas séries: 1) Documentos, que publicam versões simplificadas de relatórios oficiais do Projeto, e 2) Textos, que publicam trabalhos de pesquisas independentes.  de autoria de membros e assessores do Projeto ou de outros pesquisadores.


 

1.     O DESENVOLVIMENTO DO PROJETO

A pesquisa arqueológica do Xingó originou-se por desdobramento de um projeto de localização e mapeamento dos sítios arqueológicos do Estado de Sergipe. Em 1985, a equipe de pesquisadores do Departamento  de Sociologia e psicologia da Universidade Federal de Sergipe localizou, no município de Canindé de São Francisco, quatro sítios de registros gráficos nas proximidades do rio São Francisco. Esse achado teria conseqüências futuras, a partir do momento em que a Companhia Hidro-Elétrica do São Francisco - CHESF decidiu construir uma nova usina hidrelétrica em Xingó, cujo lago inundaria sítios arqueológicos já detectados e outros a serem descobertos. Considerando o disposto na Lei nº 3924, de 21 de Julho de 1961, que estabelece que toda área programada para ser descaracterizada por obras de engenharia deve ser submetida a um salvamento arqueológico para a avaliação da área, realizando-se o resgate do acervo existente tendo como meta uma contribuição para o conhecimento do patrimônio arqueológico histórico e cultural do país, em 1988 essa companhia firmou convênio com a UFS para realização do trabalho de salvamento arqueológico da área.

A equipe do projeto inicial (formada pelas licenciadas Maria Cleonice Vergne, Suely Amâncio da Silva e Sônia Vitório, colocadas à disposição da UFS pelo Governo do Estado, e coordenadas pelo Professor Fernando Luís de Carvalho, do mencionado Departamento) ficou encarregada do novo trabalho. No decorrer das pesquisas a equipe foi sendo alterada, com saída de alguns de seus membros e ingresso de novos. Todo o pessoal envolvido no salvamento, independentemente da duração de sua vinculação, encontra-se em lista anexa.

As pesquisas forma iniciadas sob a supervisão do Prof. Dr. Igor Chmys - então diretor do Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná -UFPR - pesquisador com uma vasta experiência em arqueologia de salvamento no sul do país, adotando-se os seguintes procedimentos.

·       Prospeção vertical e horizontal;

·       detectados vestígios arqueológicos de superfície, fazem-se sondagens de 10 x 10cm para verificar as características das camadas arqueológicas,

·       caso comprovada a existência de vestígios, realizam-se sondagens de 1m2, com profundidade de 1m.

Ao mesmo tempo em que assina convênio com a CHESF, a UFS consegue estabelecer um outro com a Universidade Federal de Sergipe de Alagoas, pelo qual ficaria responsável pelo salvamento também na margem alagoana.

A pesquisa sobre um impacto negativo da paralisação das dobras de construção da hidrelétrica, que ocorreu entre meados de 1988 e setembro de 1990. Nesse ano, apesar de reduzidas as atividades, a equipe dá continuidade a alguns estudos e tenta insistir mais uma na sua própria qualificação. Nesse ponto, destaca-se a contribuição de arqueólogos de outras Instituições. Algumas atividades realizadas nesse período podem ser mencionadas:

·       mesa - redonda sobre "O Homem do São Francisco: Experiência da Arqueologia", com participação das arqueólogas Suely Amâncio da Silva (PAX-UFS), Sônia Maria Vitório (PAX-UFS), Maria Tereza de Moura (UFMG) e Leila Almeida (UFBA). Promoção do Departamento de Ciências Sociais da UFS,

·       exposição sobre a Arqueologia de Xingó, na inauguração do Núcleo Museológico da UFS,

·       Exposição com o tema: "Projeto Arqueológico de Xingó e suas evidências", na sede da CHESF em Recife, durante as comemorações da Semana do Meio Ambiente,

·       Curso sobre "Tecnologia Lítica", em Xingó, ministrado pelo Prof. Dr. André Prous (MHN/UFMG), para arqueólogos e estagiários da UFS e UFBA.

A partir de 1991, a pesquisa retomou o ritmo normal, sendo prospectados terraços, platôs, paredões e abrigo ao longo do canhão a montante da fatura barragem e de 60 pequenos riachos, afluentes do São Francisco, sendo 25 deles em Alagoas, 26 em Sergipe e 9 na Bahia.

A partir dessa fase, mudam-se os procedimentos , passando-se a adotar a linha metodológica preconizada pela Fundação Museu do Homem Americano - FUMDHAM, já utilizada com êxito por outros centros de pesquisa arqueológicas do Nordeste. A equipe de escavação foi treinada pela FUNDHAM, que forneceu também orientação metodológica e consultoria. A Universidade Federal da Bahia, através do Instituto da Geociências, participou ativamente como consultoria em sedimentos e estratigrafia. A Universidade Federal de Pernambuco, através do Núcleo de Pesquisas Arqueológicas, forneceu consultoria para as análises do material cerâmico. A Universidade Federal de Minas Gerais participou da orientação metodológica na área dos registros gráficos. A pesquisa contou com o apoio logístico da PROMON - Engenharia Ltda., a Companhia Brasileira de projetos e Obras - CBPO e a CHESF.

Todo o trabalho foi acompanhado da itensificação de cursos, aulas práticas, estágios e consultorias técnicas especializadas. Entre 1990 e 1996, foram consultores do projeto:

·       Prof. PHD José Maria Landim Dominguez (sedimentólogo) e Prof. Arno Brichta (estratígrafo) - GEO-UFBa (1992 e 1994):

·       Prof. Dr. André Prous (UFMG)- consultoria sobre Arte Rupestre, Lítico e Fauna (1993),

·       Profa. Dra. Niéde Guidon (FUNDHAM)- consultoria sobre metodologia de campo (1990 e 1993),

·       Arqueólogo MS. Emílio Fogaça e arqueólogo Márcio Alonso Lima (MHN/UFMG), consultorias sobre material lítico (1994),

·       Arqueólogo MS. Suely Luna e Ana Nascimento (NEA/UFPe)- consultoria sobre material cerâmico (1994),

·       Profa. Dra. Evelyne Pyere (Antropóloga Física) e Dra. Bernadete Arnaud (arqueóloga)- curso de teoria e prática em Antropologia (1992),

·       Profa. Dra. Nívea Leite - consultoria geral (1996).

Com a finalidade de divulgar a pesquisa, membros da equipe do PAX participaram e apresentaram trabalhos em reuniões da Sociedade de Arqueologia Brasileira  (1989 e 1993), seminários da CHESF e outros eventos, além de produzirem informações divulgadas em folders e jornais do Estado e do país.

O fechamento da barragem, ocorrido em 1994, encontrou o salvamento plenamente realizado, com a retirada e catalogação do material lítico, cerâmico, fauna, ossos, fogueiras, esqueletos completos e sedimentos de 41 sítios a céu aberto, identificados nos terraços. Também haviam sido transcritos gravuras e pinturas rupestres identificadas em 15 sítios localizados em abrigos dos paredões do canhão.

No segundo semestre de 1995 novo convênio é firmado com a CHESF, a fim de permitir a análise do acervo coletado, e a PETROBRÁS passa a se envolver no Projeto Arqueológico de Xingó, financiando a continuação das pesquisas até a foz do São Francisco.

No final desse ano, assume a coordenação dos trabalhos a Arqueóloga Maria Cleonice Vergne, devidamente autorizada pelo Reitor da UFS, Prof. Luís Hermínio de Aguiar, trabalha em parceria com a CHESF na implantação de uma pequena unidade museológica em Xingó, o ECOMUSEU, que posteriormente, pudesse se constituir no embrião de um verdadeiro museu.

A inauguração do ECOMUSEU foi pivô de uma crise no interior do projeto, culminando com o afastamento da Coordenadora e a designação de um novo coordenador administrativo, Prof. Jônatas Menezes que, posteriormente, será sucedido pelo Prof. Ulisses Neves Rafael. A coordenação técnica dos trabalhadores fica sob a responsabilidade da Arqueóloga Suely Amâncio da Silva. Essa crise afeta o ritmo de trabalho da equipe, que prossegue, lentamente, os serviços de análise inicial dos materiais lítico, cerâmico e da fauna.

Seguidas manifestações do Departamento de Ciências Sociais, que havia assumido o projeto, solicitaram uma avaliação científica dos procedimentos e do material da pesquisa. Por designação do novo Reitor, Prof. Dr. José Fernandes de Lima, uma comissão formada pelos Professores Doutores José Luís de Morais (MAE-USP) e Tânia Andrade Lima (MN-UFRJ) efetuou a citada avaliação, apontando alguns problemas e suas soluções, mas se empenhando, muito mais, em recomendações para a continuidade dos trabalhos, levando em conta a importância do Projeto para a Universidade e para o conhecimento arqueológico do Nordeste.

A Universidade, assim, partiu para uma reestruturação do Projeto seguindo as recomendações da mencionadas avaliação, mantendo as consultorias, instituindo uma Coordenação Geral e vinculando-se diretamente à Vice-Reitoria da UFS. Foi renegociado o convênio com CHESF, a fim de ser possível a conclusão dos trabalhos até janeiro de 1998; definiu-se uma nova equipe de trabalho; os diversos relatórios existentes foram revistos e compatibilizados; as assessorias foram restabelecidas e novos contatos firmados para elaboração de análises específicas dos materiais disponíveis: programou-se a realização de 1º WORKSHOP de Arqueologia de Xingó, considerando o locus privilegiado para, numa criação coletiva, estabelecer as primeiras conclusões sobre o homem e a ocupação humana do Baixo São Francisco.

2.     A ÁREA DE ESTUDO

A área de estudo compreende parte do pediplano sertanejo, que se caracteriza  por apresentar uma superfície pediplanizada e relevos dissecados em colinas, cristas e interflúvios tabulares. Até cerca de 10km a montante de Xingó predomina um relevo dissecado, transformando-se em superfície tabular erosiva a partir daquele ponto.

Nessa área, o rio São Francisco corre um canhão bastante estreito compreendido no trecho entre Paulo Afonso e Xingó. Esse canhão, escavado no embasamento cristalino, possui desnível de cerca de 100 a 150 metros no topo da superfície aplainada. É bastante estreito (cerca de 100 a 300 metros de largura), apresentando paredes íngremes (declividades superiores a 45º) e extensas ravinas formadas por afluentes temporários de ambas as margens. Descontinuamente, ao longo do canal, ocorrem terraços arenosos com altura média de 15 a 25 metros acima do nível do rio. Tais terraços são, via de regra, estreitos e posicionados na junção do rio principal e os pequenos afluentes. Em média, esses terraços são constituídos por cerca de 60% de sedimentos de areia muito fina (diâmetro de 0,125 e0,0062 mm) e 40% de lama (com predomínio essencialmente da fração silte, logo, com muito pouca argila). Em função disso, os terraços constituem substratos com porosidade elevada e permeabilidade moderada, o que favorece a percolaçaõ das águas pluviais.

Embora, na maioria dos terraços, os sedimentos se apresentam com aspecto maciço, encontram-se estruturas sedimentares com ondulação do tipo cavalgante, organizadas em "sets" com espessura máxima em torno de 40 cm e com ângulo de cavalgamento em direção ao topo. Mesmo terraços em que os sedimentos apresentam aspecto maciço, é possível diferenciar níveis de coloração mais escura, ricos em matéria orgânica, que podem tratar-se de paleossolos. A espessura média das camadas para ambas as situações varia de 40 a 70 cm. Nas porções dos terraços próximos às paredes do canhão são encontrados níveis de grânulos e seixos muito angulosos e mal selecionados, cuja composição é semelhante à das litologias dessas paredes. Muitos desses terraços foram utilizados pelos homens pré-históricos, sendo assim, privilegiados como locais de prospecção dos possíveis sítios arqueológicos.

O clima da área é do tipo mediterrâneo, que e semi-árido mediano, com sete a oito meses secos, de agosto a março. A precipitação total é inferior a 500 mm anuais. Nessas condições climáticas desenvolve-se predominantemente uma vegetação de caatinga hiperxerófila arbustivo-arbórea, sobre solos arenosos e rasos, com ou sem afloramento rochoso, nas proximidades da calha do rio. Há manchas de caatingas arbórea, que já foi o tipo de vegetação representativo da maior parte da área estudada. A ação do homem reduziu drasticamente sua extensão, estando atualmente restrita a pequenas áreas em Delmiro Gouveia, Olho d água do Casado (AL) e Canindé de São Francisco (SE), além de ocupar trechos próximos às margens do rio São Francisco.

Essas condições ambientais tornaram penoso o trabalho de prospecção e escavação dos sítios arqueológicos, quer pelo rigor climático e pelas características da vegetação, quer pelas dificuldades de acesso aos terraços, exigindo intenso deslocamento fluvial.

3.     PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Os métodos e técnicas para escavação e sondagens utilizadas no PAX a partir da orientação da FUNDHAM são baseada em duas escolas diferentes a inglesa, representada por Mortiner Wheeler, e a francesa, com André Lerói-Gourham, o primeiro com o princípio de leitura vertical, priorizando a estratigrafia através de bermas ou muros-testemunhos, e Leroi-Gourham dando orientação para leitura horizontal, com a observação dos solos de ocupação e distribuição especial dos vestígios arqueológicos em detrimento de estratigrafia.

Entretanto, a partir da década de 50, Wheeler começa a trabalhar os dois métodos, por entender que existe uma relação homem-meio que não poderia ser lida distintamente.

As técnicas de registrar coletar, utilizar o sistema Alfa-numérico, diário de campo e registro fotográfico são comuns e admissíveis aos dois, mas as técnicas não param por ai; o xadrez, a utilização de setores de 4 x 4m com profundidade de 4m, trincheira paralelas, entre outros, seguem ainda os autores. No entanto, deve-se destacar que, mesmo com técnicas e métodos prontos, o arqueológico e/ou pesquisador deve perceber os limites das técnicas e métodos de leitura, podendo assim adaptar ou criar outros com rigor científico.

A seguir são apresentados, em terraços gerais, os procedimentos de prospecção, sondagem, escavação e catalogação do material coletado.

3.1 PROSPECÇÃO

Nesta fase final decidiu-se optar pela realização de um levantamento integral da área a fim de poder contar com um verdadeiro inventário exaustivo de todos os sítios que apresentaram indícios de vestígios arqueológicos.

Os procedimentos adotados incluem pesquisa bibliográfica, trabalho de campo e trabalho de laboratório.

Para estabelecer a estratégica do trabalho de prospecção, foram realizadas as seguintes atividades:

a)     levantamento de informações bibliográfica sobre a região, realizado nas Bibliotecas, Arquivos Públicos, Institutos Históricos e Geográficos, Universidade Federal de Sergipe e da Bahia, na Fundação Museu do Homem Americano e no Setor de topografia da Companhia Hidroelétrica de São Francisco - CHESF, em Xingó;

b)     estudo das cartas aereo-fotogramétrica na escala 1/5.000 e das cartas topográficas contento as cotas níveis do espelho d´agua que atingiria o reservatório da Usina Hidrelétrica de Xingó. Este último documento foi confeccionado pela CHESF;

c)     análise das informações fornecidas pelo sobrevôo da região a ser prospectada. A investigação aérea possibilitou o reconhecimento da área como um todo, permitindo estabelecer o conjunto de restrições que deveriam ser consideradas na formulação do plano de trabalho, em especial no referente às modalidades de acesso, terrestre e fluvial. A partir dessas informações, levantadas nos documentos e no reconhecimento aéreo da zona de estudo, foram iniciados os trabalhos de prospecção.

Os sítios arqueológicos foram identificados segundo os seguintes critérios:

1)     Identificação de terraços que podiam ter abrigado ocupações humanas, ao longo do rio São Francisco e dos seus afluentes;

2)     Presença de vestígios arqueológicos de superfície;

3)     Identificação de abrigos sob rochas, que apresentavam vestígios d pinturas ou gravuras.

No plano d documentação realizada durante o trabalho de campo, foram realizados registros fotográficos sistemáticos segundo uma cadência das equipes de prospecção.

Os sítios descobertos foram submetidos aos seguintes procedimentos de registro:

1)     fotos coloridas;

2)     posicionamento dos sítios vinculado ao levantamento topográfico geral da área do reservatório;

3)     realização de croquis dos sítios e da área circundante;

4)     preenchimento das fichas descritas dos sítios.

No plano da estratégica de prospecção, a equipe procedeu da seguinte maneira:

1)     tomou-se como eixo condutor o rio São Francisco, desde a Usina Hidrelétrica Paulo Afonso IV, até a Usina Hidrelétrica de Xingó, área compreendida entre 37º de longitude oeste 9º 30º´/9º 40´de latitude sul. Os trabalhos foram iniciados a partir do local onde seria implantado o eixo da barragem até Paulo Afonso IV, numa área de 81,40km2,

2)     este percurso foi dividido em três partes, tomando como base as características geomofológicas;

3)     a investigação terrestre foi realizada apenas seguindo as margens do rio São Francisco e dos riachos afluentes. Foi necessário limitar o deslocamento através do rio após a cachoeira do Topo, por tratar-se de um curso de água entre as paredes do canhão, intercalado por áreas mais abertas nas quais estavam assentados os terraços e foz de riachos.

A prospecção teve como resultado a identificação de possíveis 95 sítios, que foram posicionados topograficamente, sendo 80 a céu aberto, em terraços e 15 nos paredões.

Toda área existente entre a Hidrelétrica de Paulo Afonso IV e, a Hidrelétrica de Xingó está compreendida dentro de um canhão. Nela foi possível distinguir três áreas diferentes. Duas destas áreas estão separadas por um terceiro intermediário que, morfologicamente, apresentam um maior estreitamento do vale. Essa morfologia diferente das três áreas impõe condições de acesso exclusivamente pelo rio, de barco. Entre a Hidrelétrica de Paulo Afonso IV e a área 1, é possível navegar com dificuldade, em razão das fortes corredeiras, tornando-se, no período chuvoso, preferível deixar o barco e andar pelas margens até o sítio, tal é a força da correnteza. Da área 1 à área 2 ocorrem pequenas corredeiras, possível de enfrentar de barco. Da área 2 para a área 3 o acesso é feito sem maiores dificuldades. Em cada área o restante do trabalho foi feito a pé.

ÁREA 1

A área 1 ocupa áreas dos Estados da Bahia, Alagoas e Sergipe. Inicia-se a jusante da Hidrelétrica de Paulo Afonso IV e determina na divisa Bahia/Sergipe, no riacho Xingozinho. Essa área perfaz 21.59km2.

Nessa área temos o primeiro macro-ecossistema inserido na formação geológica da planície pré-cambriana. O perfil geomorfológico indica uma área formada de terraços, nas curvas do rio. A presença desses terraços ocorre nas margens baiana e sergipana, não existindo na margem alagoana.

ÁREA 2

Abrange os Estados de Alagoas e Sergipe, situado entre o riacho Poço Verde e o riacho Talhado, com uma área de 22,11Km2.

Esse macro ecossistema encontra-se inserido na falha da bacia sedimentar da formação Tacaratu sobre o pré-cambriano. Nessa área nota-se a presença de terraços de beira rio no Estado de Sergipe e de abrigos nos afluentes existentes nas duas margens.

ÁREA 3

Está situada nos Estados de Alagoas e Sergipe, entre o riacho Vitória Régia e o eixo da Barragem da UHE e de Xingó, correspondendo a um área de 37,70km2.

Este macro ecossistema está inserido na superfície pré-cambriana, apresentando terraços nas margens alagoana e sergipana.

No Estado de Alagoas e no Estado de Sergipe foram identificados vários sítios, pois nessa área existem os indicadores da maior ocupação humana.

3.2 SONDAGEM

Entende-se por sondagem a escavação feita numa área limitada, escolhida em um setor do sítio, de acordo com as informações que se buscam. As técnicas de escavação utilizadas são as mesmas utilizadas nas escavações de grande superfície. A finalidade é poder visualizar o perfil estratigráfico do sítio  identificar o seu potencial arqueológico através da descoberta de vestígios da cultura material.

A partir dos dados fornecidos pela prospecção, foram selecionados, 58 sítios a céu aberto para etapa de sondagem, tendo em vista um maior potencial em relação aos prazos disponíveis para o salvamento. Considerando o volume de trabalho, foram criadas 7 equipes de campo, com atividades simultâneas.

Para a realização dessas sondagens, utilizaram-se as técnicas de decapagem por níveis artificiais, sendo realizadas nos sítios a céu-aberto, situados nos terraços à beira do rio São Francisco e seus afluentes. As sondagens foram feitas na totalidade dos sítios identificados para se obter a maior quantidade de informação sobre o contexto arqueológico regional.

No plano metodológico, optou-se pelo procedimento de trincheiras ao invés do sistema de áreas de 2 x 2m. As trincheiras são áreas com uma largura mínima de 2m por um comprimento igual ao terraço, o que permite uma maior exploração e a obtenção de uma macroscópica do sítio sondado. Este tipo de sondagem fornece informações sobre o processo de formação geológica dos sítios, pois a escavação realiza-se até atingir um embasamento rochoso ou limite do lençol d'água. A aplicação desse procedimento permitiu, também, fazer um estudo comparativo entre os sítios escolhidos. Posteriormente, os resultados desses estudos comparativos puderam ser confrontados aos resultados das escavações integrais feitas nos sítios selecionados.

Os trabalhos de sondagens foram realizados com as seguintes técnicas:

 


Foto 1 - Escavação do Sítio Justino

 


Foto 2 - Escavação do Sítio Justino

 


Foto 3 - Escavação do Sítio Justino

1)     abriram-se trincheiras paralelas e transversais ao rio ou riacho, de 2m de largura pela extensão do terreno, que virou de 5m a 75m;

2)     as decapagens foram realizadas por níveis artificiais;

3)     os vestígios achados formam plotados, etiquetados e retirados;

4)     todos os níveis das sondagens foram registradas fotograficamente (grande maioria em fotos coloridas; poucas em preto e branco);

5)     os cortes estratigráficos foram levantados;

6)     foram recolhidas amostras de sedimentos para análise granulométrica;

7)     as amostras de carvão foram recolhidas dentro de fogueiras estruturas ou não estruturadas.

3.3 ESCAVAÇÃO

Os sítios Justino e o São José II foram objetivo de sondagem para avaliação do seu potencial arqueológico. A sondagem levou à descoberta de esqueletos humanos completos, o que tornou necessário a realização de uma escavação sistemática de toda a área do terraço, o que permitiu o resgate de uma grande quantidade de vestígios arqueológicos de grande valor científico.

Os procedimentos utilizados para a escavação foram os seguintes:

1)     limpeza da área;

2)     levantamento topográfico, altimétrico e planimétrico;

3)     estabelecimento de um sistema de referência através de um quadriculamento de 5 x 5m;

4)     decapagem por níveis artificiais, definida segundo a técnica de Wheeler;

5)     ampliação da escavação, abrangendo toda área e atingindo o embasamento rochoso;

6)     plotagem dos vestígios encontrados;

7)     levantamento do perfil dos cortes deixados pela escavação;

8)     desenho dos planos dos enterramentos e das fogueiras;

9)     realização dos cortes estratigráficos;

10) levantamento topográfico dos sítios e dos vestígios in situ;

11) engessamento dos enterramentos para posterior escavação em laboratório.

A título de demonstração as figuras 2.1 e 2.2 mostram planos topográficos do Sítio Justino.

3.4 CATALOGAÇÃO DO MATERIAL

O trabalho de catalogação pode dar subsídios para melhor e maior conhecimento da área que está sendo estudada. Partindo dos percentuais gerais dos sítios, da localização dos vestígios, através das fichas de análise do material cerâmico (observação da técnica de manufatura, tratamento externo, tratamento interno, aditivo...); do lítico, a tecnologia e a matéria prima mais utilizadas; da fauna, os animais mais utilizados para moer.

Os  procedimentos aplicados para a catalogação de todo material foram os de listar os vestígios por sítios, nível, quantidade, e separar todo tipo de material (cerâmico, lítico, fauna, fogueira, ossos, sedimentos, sedimento de trado, ocre...). Para o material cerâmico e lítico foi feita uma classificação.

Para a catalogação e classificação do material por sítio, nível e, posteriormente, quanto à matéria prima, tipo de lascamento, dimensões  (comprimento, espessura e largura), córtex e suporte.