PROJETO FINANCIADO PELA CHESF

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Arqueólogas do NEA/UFPe.

Arqueólogas do PAX.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Suely Luna

Ana Nascimento

OS GRUPOS CERAMISTAS DO BAIXO SÃO

FRANCISCO: PRIMEIROS RESULTADOS

Documento 12                                     1997


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

 

REITOR: Prof. Dr. José Fernandes de Lima

VICE-REITOR: Prof. Dr. Josué Modesto dos Passos Subrinho

 

 

 

 

PROJETO ARQUEOLÓGICO DE XINGÓ - PAX

 

COORDENADOR GERAL:

Prof. Dr. José Alexandre F. Diniz

COORDENADORES TÉCNICOS:

Arqueóloga Maria Cleonice de Souza Vergne

Arqueóloga Suely Luna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os CADERNOS DE ARQUEOLOGIA, publicação seriada do Projeto Arqueológico de Xingó, que têm por objetivo a divulgação de resultados de pesquisas produzidas na área, contam com duas séries: 1) Documentos, que publicam versões simplificadas de relatórios oficiais do Projeto, e 2) Textos, que publicam trabalhos de pesquisas independentes.  de autoria de membros e assessores do Projeto ou de outros pesquisadores.


INTRODUÇÃO

 

O material proveniente das pesquisas realizadas durante o Projeto Arqueológico de Xingó (PAX), vem sendo analisado por pesquisadores de várias especialidades com o intuito de agregar o maior número de dados possíveis para que se possa integrá-los, de modo a se poder visualizar a ocupação pré-histórica dessa área, inserindo-a dentro do contexto arqueológico nordestino brasileiro.

 

Dentro desta perspectiva coube-nos a tarefa de estudar os vestígios cerâmicos, porém sabemos que a integração com os resultados obtidos pelas demais análises dos outros conjuntos de materiais arqueológicos será de fundamental importância para a compreensão da integridade histórica dos povos que viveram naquela região. O conjunto cerâmico de Xingó tem grande expressão, pois temos um dos maiores acervos de cerâmica associada a ritos funerários do Nordeste, que correspondem ao sítio arqueológico do Justino. Neste sítio se pode acompanhar a evolução de todo um contexto arqueológico, relacionado a cerâmicas, durante pelo menos 2.000 mil anos. E os outros sítios pesquisados nos possibilitam a compreensão da ocupação dos espaços.

 

Se fizermos uma breve retrospectiva do estudo dos grupos pré-históricos no Nordeste brasileiro, que possuíram a cerâmica como um dos elementos da sua cultura material, veremos que o nível de informações é bem pequeno, e que apesar dos vários anos de pesquisas realizadas, ainda falta muito para se obter um panorama da ocupação do Nordeste. Mas, aos poucos se vai formando o arcabouço teórico-metodológico bem como os próprios dados, isto é, os resultados dos trabalhos de pesquisas sistemáticas baseadas na construção de questões dirigidas a orientar um “modelo” de ocupação desses grupos. Sabemos que muitos anos ou talvez décadas serão necessárias para se obter este quadro tão almejado, contudo, as duas primeiras qualidades que deve ter um pesquisador são a paciência e a perseverança.

 

 

O CONTEXTO ARQUEOLÓGICO NORDESTINO

 

O estudo arqueológico sobre grupos que tem a cerâmica como um dos seus elementos materiais têm se restringido, basicamente, à própria cerâmica, sem contudo delinearmos um perfil cultural dos grupos que as utilizaram. Essa limitação interpretativa está alicerçada nos pressupostos teórico-metodológicos, ou na falta deles, adotados desde o início da arqueologia sistemática no País. Diversos trabalhos já foram publicados sobre esse período e discutidas as implicações que resultaram para a arqueologia nacional, principalmente os relacionados  à implantação e o desenvolvimento do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas – PRONAPA (ver Ana Nascimento et al., 1990; André Prous, 1992; Cláudia Alves, 1991, entre outros).

 

O desenvolvimento das pesquisas no Nordeste é marcado pela implantação do PRONAPA nos anos sessenta, onde apenas a Bahia e o Rio Grande do Norte tiveram representantes, e mesmo assim, as investigações realizadas ficaram restritas a pequenas áreas. Identificaram-se várias tradições regionais baseadas principalmente nos atributos técnicos, sem porém ficarem claras as características sócio-econômicas dos autores dessas cerâmicas e sua filiação étnica. Como resultado desses estudos localizados, foram definidas as tradições ceramistas Tupiguarani e Aratu, duas tradições de ampla dispersão, que limitaram durante vários anos toda e qualquer possibilidade de um estudo crítico e aberto das populações ceramistas nordestinas, pois praticamente toda a cerâmica encontrada nos sítios arqueológicos eram quase que, de forma automática, relacionadas a uma das duas tradições anteriormente citadas.

 

Segundo Gabriela Martin (1997) “Hoje essas divisões estão sendo contestadas e admite-se a existência de grupos ceramistas independentes, não filiados a nenhuma dessas duas tradições, com cerâmicas locais que devem ser estudadas a partir dos seus atributos técnicos e utilitários, sem filiações apriorísticas”.

 

Dentro desse contexto, observa-se na região Nordeste a presença de algumas dessas tradições cerâmicas identificadas pelo PRONAPA e de diversas cerâmicas que não estão filiadas a nenhuma delas.

 

A tradição Tupiguarani está representada por diversas fases estabelecidas e, em princípio, os sítios pesquisados foram aqueles localizados ao longo da costa e região da Mata Atlântica do Nordeste, isto porque se acreditava que esta tradição estava diretamente relacionada com áreas de floresta. Porém, no transcorrer dos estudos, verificou-se, por vários pesquisadores, a presença da cerâmica Tupiguarani em áreas de domínio das caatingas, contexto ambiental bastante diverso daquele originalmente atribuído a essa tradição. No início acreditou-se tratar de grupos expulsos da região da Zona da Mata pela pressão do colonizador europeu, contudo, com o decorrer das pesquisas atestou-se que as aldeias localizadas no semi-árido continuavam com sua estrutura organizada não demonstrando quaisquer sinais de alteração no modo de vida das populações.

 

Um quadro de periodização dessa tradição é apresentado por José P. Brochado (1973), que estabelece o seu início e sua consolidação até 500 A.D., seguindo-se vários períodos até os dias atuais. Dentro de sua concepção o quadro proposto é:

 

 

500

início da tradição

 

500

900

período arcaico

Período pré-histórico

900

1300

período médio

 

1300 -

1500

período tardio

 

1500

1800

período colonial

Período histórico

1800

1900

período atual

 

 

De acordo com o autor, o período médio (900-1300 A.D.) corresponde à chegada da primeira onda migratória, que traz para o Nordeste a sub-tradição Pintada, e no período tardio (1300-1500 A.D.) se desenvolve a maior parte da segunda onda migratória, conduzindo a sub-tradição Corrugada que chegou até o rio da Prata e se estendeu até o Nordeste.

 

Ainda coloca o autor que, considerando as diferenças observadas na tradição Tupiguarani, no que se refere a morfologia das vasilhas e no tratamento de superfície, que isso representaria diferenciações regionais e propõe a fixação de duas sub-tradições: a sub-tradição da Região Leste Nordeste, que estaria associada etnograficamente a grupos Tupi da costa, e a sub-tradição da Região Sul, a qual seria vinculada com os Guarani do Sul.

 

Embora seja uma das tradições mais amplamente estudadas, poucos sítios arqueológicos no Nordeste brasileiro foram escavados e as publicações resultantes desses trabalhos são poucas e, geralmente, limitam-se a condição de notas prévias. Em relação à caracterização da tradição, o que temos no Nordeste é muito mais a repetição do conhecimento oriundo das pesquisas realizadas no sul e sudeste do País, do que o estabelecimento de um arcabouço explicativo baseado em informações provenientes do contexto arqueológico e da etno-história regional.

 

A outra tradição cerâmica estabelecida no Nordeste foi a Aratu, que, em princípio, foi chamada de regional pelo PRONAPA, mas com o decorrer dos trabalhos, observou-se sua presença num território tão extenso que hoje, dificilmente, poderemos considerá-la como regional.

 

Ela foi instituída a partir de sítios pesquisados por Valentin Calderón no litoral da Bahia e, segundo alguns autores, está caracterizada não só pela localização de um tipo de cerâmica, mas sim por tratar-se de uma cultura de agricultores ceramistas que estaria caracterizada por:

·       aldeias circulares localizadas em elevações suaves;

·       sepultamentos primários em urnas nos arredores das aldeias;

·       a alimentação não baseada apenas no uso da mandioca, sendo utilizados também o milho, o feijão e o amendoim;

·       a cerâmica manufaturada por acordelamento, praticamente sem decoração, com tratamento de superfície alisado ou com engobo de grafite, e as vasilhas possuírem formas semi-esféricas com bordas onduladas;

·       urnas funerárias com forma piriforme e os opérculos, quando utilizados para cobrir a boca das urnas, em forma de meia-esfera;

·       rodelas de fuso de cerâmica ou pedra com dimensões de até 8cm de diâmetro;

·       cachimbos com forma tubular ou de funil;

·       pilões em pedra e;

·       lâminas de machado, picoteadas ou polidas, de diversos tamanhos.

 

A cronologia desta tradição está situada, a partir das datas obtidas por C-14, entre 870 a 1.360 anos A.D., porém são muito poucas ainda para se estabelecer o quadro cronológico da tradição. Pelos dados fornecidos pelas publicações pode-se delimitar, com confiabilidade, a área de influência Aratu no Nordeste a partir de Sergipe, em toda costa baiana até o Espírito Santo, e no interior da Bahia até a região do rio Grande. Os dados filiados a esta tradição no restante do Nordeste, no Sudeste e no Centro-Oeste têm aspectos pouco confiáveis.

 

Além dessas tradições estabelecidas, observa-se no Nordeste a presença em diversos sítios arqueológicos com tipos de cerâmica que não estão associados a nenhuma tradição e, portanto, carecem de estudo para a formação de um quadro de caracterização geral dos grupos ceramistas da região. Podemos apontar como exemplo, algumas dessas cerâmicas como forma de demonstrar as lacunas existentes, causadas pela falta de continuidade dos trabalhos ou por se tratarem de tipos de cerâmica encontrados em áreas pesquisadas recentemente, como é o caso das cerâmicas encontradas na região dunar do litoral norte-rio-grandense.

 

As cronologias antigas obtidas em diversos sítios arqueológicos no Nordeste, onde ocorrem a presença de cerâmica, nos mostram que ao contrário do que se pensava, a utilização deste tipo de artefato é muito antigo, podendo-se pensar em um núcleo de surgimento independente.

 

Nos últimos anos vemos o início de uma nova perspectiva no estudo da cerâmica, não mais colocando-a como elemento definidor cultural mas, sobretudo, tentando entendê-la dentro do contexto arqueológico maior do sítio, em primeira instância, onde ela é apenas uma parte do todo das informações vestigiais que resgatamos. Hoje, considera-se essencial que no estudo dos sítios arqueológicos a análise seja feita sob uma perspectiva de área, onde observar-se-á quais os elementos que serão utilizados como parâmetros para a reconstituição.

 

 

PROCEDIMENTOS PARA A ANÁLISE DA CERÂMICA

 

A análise do material cerâmico será desenvolvida de forma a permitir-nos a identificação das técnicas utilizadas pelo grupo na elaboração de sua cerâmica. Os procedimentos adotados seguirão os seguintes passos:

1.     separaremos os fragmentos cerâmicos em unidades;

2.     serão analisados os elementos que compõem cada unidade cerâmica;

3.     identificaremos os objetos dentro de cada unidade cerâmica;

4.     segregaremos as características que irão delinear o perfil técnico cerâmico do sítio.

 

O primeiro nível de ordenamento dos fragmentos, para darmos início à análise, constitui em separá-los. Para essa separação, os elementos que servirão de parâm serão a presença e os tipos de aditivo, e o tratamento de superfície externa dos fragmentos. Os fragmentos que não apresentarem condições de verificação de um desses dois elementos irão constituir a classe dos fragmentos cerâmicos residuais.

 

A escolha dos elementos acima citados como parâm, deu-se porque eles nos ofereceriam uma distinção perceptiva imediata dos fragmentos, como também pelo seu menor grau de ambigüidade analítica, ou seja, esses elementos não teriam outras variáveis que influenciariam em sua caracterização.

 

Os elementos de caracterização das unidades

a – Identificação dos aditivos

Verificamos, dentro de cada unidade cerâmica, a presença e os tipos de aditivo, que tecnicamente poderiam servir para melhorar a manuseabilidade da argila, aumentar ou diminuir a sua porosidade e permeabilidade como também de aumentar a resistência dos objetos depois da queima.

 

Juntamente com a análise do tipo de aditivo, observamos o seu tamanho, sua distribuição na pasta e a formação e bolhas de ar. Esses elementos podem nos indicar um amassamento homogêneo ou não da pasta pelo artesão.

 

A escolha do aditivo como primeiro parâmetro se deve ao fato de que existem muitos objetos que possuem mais de um tipo de tratamento de superfície, de forma que poderíamos, na segregação das unidades, separar fragmentos de um mesmo objeto.

 

b – Tratamento de superfície

A etapa de acabamento dos objetos pode ser composta por vários procedimentos de uniformização das superfícies. Esses processos podem ter finalidades utilitárias e/ou decorativas. São procedimentos de difícil identificação, a não ser por algumas marcas que, às vezes, podem escapar ao artesão. Consideramos, para efeito de análise, a última ação humana que determina as superfícies do objeto, como sendo o acabamento das superfícies propriamente dito. Portanto, além do alisamento, polimento e o brunido, as decorações plásticas e pintadas serão consideradas como o tratamento de superfície.

 

Para a segregação das unidades, utilizaremos apenas a superfície externa dos fragmentos, isto porque, a maior diversidade técnica é apresentada nesta superfície.

 

Nos fragmentos que apresentam pintura, será necessária a realização de análises específicas para identificar a origem dos pigmentos que foram utilizados na sua elaboração, de forma a podermos obter outras informações sobre as matérias-primas utilizadas pelo grupo. Indicar-se-á as cores das tintas utilizadas, como também far-se-ão observações sobre o grau de desprendimento das tintas, quando em contato com a água, o que poderá nos permitir distinguir as etapas na execução dessas pinturas.

 

No momento da análise do tratamento das superfícies, será feita referência aos instrumentos utilizados na preparação da cerâmica, bem como às deduções de suas funções no processo produtivo da peça. Essas referências serão feitas através dos resultados finais da utilização desses instrumentos no conjunto de fragmentos da unidade.

 

No interior de cada unidade cerâmica, procederemos à análise de outros parâm, tais como:

1 – Identificação do tipo de tratamento da superfície interna dos fragmentos que compõem as unidades cerâmicas; a partir desta análise, poderemos identificar um ou mais tipos de tratamento de superfície interna, passarão a constituir um grupo dentro da unidade, e, no interior desse grupo, observamos:

·       quantidade de fragmentos;

·       separação dos fragmentos que fornecem elementos de informação, tanto de ordem técnica quanto de identificação da forma;

·       os fragmentos que nos fornecerem apenas informações no tocante ao tipo de aditivo e ao tratamento de superfície, irão constituir a classe de análise diferida.

 

2 – Identificados esses elementos, trabalharemos, dentro de cada grupo, com os fragmentos que nos informam a identidade da forma, para isso, iniciaremos a etapa de recomposição dos objetos.

 

Para a reconstituição das vasilhas cerâmicas, como na maioria das vezes não temos a vasilha inteira, para proceder sua recomposição será  necessário passar por várias etapas:

·       tentativa de encaixe dos fragmentos para que possamos, o máximo possível, colar os fragmentos e recompor os objetos com maior segurança. Para esta etapa, separamos as partes correspondentes do objeto por espessura e forma, de modo a facilitar sua recomposição;

·       iniciamos a separação das vasilhas que conseguimos completar, daquelas que conseguimos apenas seu contorno. Dessas vasilhas, separamos, ainda, as que têm boca circular das que não possuem boca circular;

·       na reconstituição das vasilhas que não apresentam todos os elementos que consideramos essenciais para a recomposição, ou seja, borda, bojo e base, mas que apresentam, no mínimo, ¼ da borda e do bojo, será feita uma associação entre as bases encontradas na unidade, como também pela tendência de suas espessuras em relação ao bojo e à borda que lhes seria correspondente. Neste caso, estas vasilhas serão consideradas de reconstituição hipotética. Em alguns casos, ainda que o fragmento ou a junção de vários fragmentos não possibilite a obtenção deste mínimo de ¼ do objeto, será feito o seu esboço de maneira a podermos calcular, em termos de quantidade, o volume aproximado       de peças no sítio, estabelecendo estimativas de uso e produção, bem como as preferências aos tipos de formas;

·       a reconstituição das vasilhas que apresentam boca não circular, só poderá ser realizada se dispormos, além dos elementos essenciais, de no mínimo, os dois eixos que estabelecem sua forma geométrica;

·       após a reconstituição das vasilhas, realizar-se-á a recomposição gráfica de cada uma delas;

·       a próxima etapa será a identificação dos tipos de vasilha. E para esta identificação tomar-se-ão os seguintes critérios:

1 – o tipo de boca das vasilhas;

2 – o contorno das vasilhas;

3 – o tamanho, que será obtido a partir da relação entre o diâmetro da boca e a profundidade da vasilha;

4 – e o tipo de base.

 

Para a reconstituição de outros objetos cerâmicos, será procedida a junção e colagem das partes componentes desses objetos, a partir de sua forma e espessura, será efetuada a recomposição gráfica de cada objeto; e será realizada a separação por forma geométrica de cada objeto.

 

Após esses procedimentos de análise da unidade, observam-se os seguintes pontos:

·       a distribuição da unidade entre as áreas identificadas no sítio;

·       os tipos de objetos identificados na unidade e suas representatividades;

·       os tipos de formas desses objetos e suas representatividades;

·       a identificação de possíveis sinais de utilização nos objetos.

 

Muitos procedimentos podem ser acrescentados à análise, porém é necessário que todos os passos analíticos a serem dados não tenham ambigüidade e, principalmente, fique claro o porquê de sua utilização.

 

 

A CERÂMICA ARQUEOLÓGICA DE XINGÓ

 

A análise do conjunto cerâmico de Xingó encontra-se, no momento, em fase de desenvolvimento, porém alguns resultados já podem ser adiantados com relação às coleções cerâmicas dos sítios Justino I, São José I, São José II, Caraíbas, Recanto do Olodum e Mulungu. O que se percebeu nesta primeira etapa é que estamos tratando com um novo horizonte cerâmico, não relacionado, em princípio, com outras cerâmicas já estudadas na região. As cronologias obtidas nos remetem a ocupações desde 4.340 a 1.280 ± 45 anos BP no sítio Justino I, e as duas datações oriundas do sítio São José II, 3.500 ± 110 e 4.140 ± 90 BP, que corroboram essa ocupação antiga, com possibilidade de se ter uma sequência mais completa, pois existem muitas amostras ainda não datadas, colocando esse conjunto dentro de um período cronológico fora da suposta influência da tecnologia cerâmica de tradição Tupiguarani ou Aratu.

 

Um outro fator que será de suma importância para a caracterização do perfil dessas populações é o fato de se ter um acervo de vestígios muito rico do ponto de vista de informações, com possibilidades de relações em diversos níveis da cultura material, ou talvez até mesmo da chamada cultura simbólica, como é por exemplo o caso das relações entre a cerâmica e o ritual de enterramento. Será possível não só estabelecer características técnicas, mas sobretudo se poderá entender espacial e funcionalmente a utilização dessas cerâmicas associadas aos enterramentos. Do mesmo modo, as relações entre a cerâmica e o material lítico, ao menos aqueles que poderão estar relacionados espacialmente com a cerâmica, enfim, um mundo de relações podem ser obtidas não apenas relacionadas às questões tecnológicas.

 

Mostraremos em seguida as primeiras tabelas com as características técnicas gerais obtidas, sendo seguidas de lista com as abreviações de todos os tipos de variantes de aditivo, tratamento da superfície externa, tratamento da superfície interna e das técnicas de manufatura que ocorrem nos sítios analisados.

 

SÍTIO JUSTINO I

Unidade

Grupo

Aditivo

TSE

TSI

Manuf.

Fase

1

1

AE

AL

AL

AD/ML

1 a 19; 21 a 25, 27;30

1

2

AE

AL

EB

NI

4, 7, 8, 14, 16

1

3

AE

AL

AL+PV

NI

12, 13

1

4

AE

AL

AL+VE

NI

14

1

5

AE

AL

VE

NI

4, 6, 11, 12, 16, 17

2

1

AE

RL

AL

AD

3,4,7,8,9,12 a 20

2

2

AE

RL

AL+PV

AD

22

3

1

AE

CR

AL

AD

1,2,3,5,11,12

4

1

AE

AL+VE

VE

NI

3

4

2

AE

AL+VE

AL+VE

NI

16

4

3

AE

AL+VE

AL

NI

16

5

1

AE

VE

VE

AD

2,6,7,8,9

5

2

AE

VE

AL

NI

2, 3, 4

6

1

AE

EC

AL

AD

9,11,12,13,14,17 a 22

7

1

AE

EX

AL

NI

10,11,13,18,19,20

8

1

AE

EX+PV+IP

AL

NI

12, 13

9

1

AE

EX+IP

AL

NI

13, 17

10

1

AE

EX+MI

AL

NI

19

11

1

AE

IP

AL

NI

4,6,7,10,11,12,13,20

12

1

AE

AL+IP

AL

AD

1,2,5,12 a 21

13

1

AE

IP+MI

AL

NI

17

14

1

AE

IP+PV

AL

NI

17, 18

15

1

AE

AL+PV+IP

AL+PV

AD

16

16

1

AE

MC+RO

AL

AD

12,13,15 a 19

17

1

AE

MI

AL

AD/ML

5,15,17,19

18

1

AE

PA+AL

AL

NI

3,5,6,8,10,14,15,16

19

1

AE

PT

AL

NI

4, 9

20

1

AE

AL+PT

AL

AD

14,16,17

21

1

AE

PD

PD

AD

2,3,4,6,7,8

21

2

AE

PD

AL

NI

2

22

1

AE

PD+IP

PD

AD

8

23

1

AE

RO

AL

AD

2 a 7,9 a 14,16 a 20,22,23,31


 

Unidade

Grupo

Aditivo

TSE

TSI

Manuf.

Fase

24

1

AE

RO+EC

AL

AD

6,17,18

25

1

AE

RO+MI

AL

AD

9

26

1

AE

RO+IP

AL

AD

16

27

2

AM

AL

AL

AD/ML

1 a 15,17 a 21, 31, 32

27

2

AM

AL

AL

AD/ML

2,3,7

28

1

AM

RL

AL

NI

14

29

1

AM

AL+PV

AL+PV

NI

19,21

29

2

AM

AL+PV

AL

NI

18

29

3

AM

AL+PV

EV

NI

4

30

1

AM

CR

AL

AD

2,4,8,9,10

31

1

AM

EV

EV

AD

4,5,7,16

32

1

AM

EC

AL

AD

1,10

33

1

AM

AL+GF

GF

NI

1

34

1

AM

IP

AL

NI

3,12

35

1

AM

AL+IP

AL

NI

11

36

1

AM

AL+EX+IP

AL

NI

19

37

1

AM

MI

AL

AD

16

38

1

AM

PD

PD

NI

3,6

38

2

AM

PD

AL

NI

5

39

1

AM

RO

AL

AD

8,15,17,20,21,24

40

1

CT

AL+EB

VB

NI

1

41

1

CT

AL

AL

AD

1,3

41

2

CT

AL

EB

AD

1,3

42

1

BA

AL

AL

NI

1

43

1

CT+AE

AL

EB

NI

5

44

1

AU

AL

AL

AD

1,7,16,21

44

2

AU

AL

EB

AD

2

45

1

AU

AL+PV

AL+PV

NI

18

46

1

AU

EC

AL+PV

NI

8

47

1

AU

MC+RO

AL

AD

20

48

1

AU

AL+IP

AL

AD

16,18

49

1

AU

PD

PD

NI

1,11,13,14,19,23

 


 

 

SÍTIO SÃO JOSÉ I

Unidade

Grupo

Aditivo

TSE

TSI

Manuf.

Fase

1

1

AE

AL

AL

NI

1,3,4,5,6,7

1

2

AE

AL

PV

NI

1

2

1

AE

EC+AL

AL

NI

1

3

1

AE

EC

AL

NI

3

4

1

AE

VB

AL

NI

3

5

1

AE

AL+IP

AL

NI

1

6

1

AE

PT

AL

NI

1

7

1

AU

PD

PD

AD

1

7

2

AU

PD

AL

NI

1

8

1

AU

PV

AL

NI

1

9

1

AM

AL

AL

NI

1

 

 

 

SÍTIO SÃO JOSÉ II

Unidade

Grupo

Aditivo

TSE

TSI

Manuf.

Fase

1

1

AE

AL

AL

AD

1 a 9, 14 a 18

2

1

AE

EC

AL

NI

1,2,3

3

1

AE

AL+ MI

AL+PV

NI

15

4

1

AE

MI

AL

NI

17

5

1

AM

AL

AL

NI

3,6

6

1

AU

AL

AL

NI

1

 

 

 

SÍTIO CARAÍBAS

Unidade

Grupo

Aditivo

TSE

TSI

Manuf.

Fase

1

1

AE

AL

AL

NI

1

2

1

AE

EC

AL

NI

1

 


 

SÍTIO RECANTO DO OLODUM

Unidade

Grupo

Aditivo

TSE

TSI

Manuf.

Fase

1

1

AE

AL

AL

NI

10

 

 

 

SÍTIO MULUNGU

Unidade

Grupo

Aditivo

TSE

TSI

Manuf.

Fase

1

1

AE

AL

AL

AD

4

 

 

 

Lista com as abreviações dos aditivos, tratamentos das superfícies e técnica de manufatura da cerâmica do PAX – Montante

 

TRATAMENTO DA SUPERFÍCIE EXTERNA

Escovado

EC

Inciso com instrumento de ponta

IP

Entalhado

ET

Roletado

RO

Exciso

EX

Grafitado

GF

Corrugado

CR

Marcado com Cestaria

MC

Marcado com instrumento de ponta

MI

Ponteado

PT

Ponteado-Arrastado

PA

Alisado

AL

Polido

PD

Pintado de vermelho

PV

Engobo vermelho

VE

Engobo branco

EB

Aplicado em forma de rolete

RL

Vermelho sobre branco

VB

 


 

TRATAMENTO DA SUPERFÍCIE INTERNA

Alisado

AL

Polido

PD

Pintado de vermelho

PV

Engobo vermelho

VE

Engobo branco

EB

Grafitado

GF

Vermelho sobre banco

VB

 

 

PRESENÇA OU NÃO DE ADITIVOS

Areia

AE

Areia + Mica

AM

Cacos triturados de cerâmica

CT

Bolos de argila

BA

Ausente

AU

 

 

TÉCNICA DE MANUFATURA

Acordelado

AD

Modelado

ML

Acordelado/Modelado

AMD

Torneado

TN

Não identificada

NI

 

OBSERVAÇÃO:

1)     Os tratamentos de superfície podem ocorrer conjugados em duas ou três modalidades, por exemplo, uma peça pode ter a superfície com acabamento ALISADO+PINTADO DE VERMELHO ou ALISADO+INCISO COM INSTRUMENTO DE PONTA + EXCISO, bem como a presença de aditivos pode ocorrer com a junção de dois tipos.

2)     Uma outra observação que se faz necessária, é referente à continuação da análise dos outros sítios, pois podem aparecer novas modalidades de tratamento de superfície.

 

Com relação a um quadro generalizado dos vestígios cerâmicos que analisamos até o momento, pudemos observar que, em sua grande maioria, os fragmentos apresentam-se com o tratamento de superfície alisado, e à medida que nos aproximamos dos níveis mais baixos de escavação, especialmente do sítio Justino I, a cerâmica apresenta-se mais bem elaborada com relação à decoração plástica, apresentando-se na sua maioria roletada, incisa, aparecendo também, escovada, excisa, marcada em esteira, ponteada, corrugada entre outras. A decoração pintada ocorre em menor quantidade e, quando aparece, geralmente são restos de pintura nas cores vermelha e branca.

 

O aditivo encontrado nessas cerâmicas são de areia, areia+mica, além de pequena quantidade de fragmentos com cacos de cerâmica triturados, bolos de argila e fragmentos sem aditivo. As cerâmicas com antiplástico de cacos triturados e bolos de argila parecem estar relacionadas com a tradição Tupiguarani, e vale ressaltar que sua presença se dá apenas no sítio Justino I, e está localizado somente nas fases 1, 3 e 5, ou seja, nos últimos períodos de ocupação do sítio, parecendo ser intrusiva.

 

O método de manufatura, na sua maior parte, é o acordelado. A cerâmica apresenta, de modo geral, boa queima, porém ocorre a presença de fragmentos bastante friáveis, talvez esse fato se deva à má qualidade da queima de alguns objetos, ou porque esses sítios ficam situados em área das margens do rio São Francisco, sujeita a inundações periódicas, podendo este fenômeno ter ocasionado processo de degradação da cerâmica.

 

Observa-se uma tendência entre os sítios da área arqueológica de Xingó, de apresentarem as mesmas características técnicas e morfológicas, talvez indicando a mesma origem, ou seja, que pertenceriam ao mesmo perfil técnico. Através da análise mais detalhada desses sítios poderemos estabelecer essa correlação.

 

Endereço para contato:

UFPE – CFCH – Pós-Graduação em História, 10º andar

Núcleo de Estudos Arqueológicos

Cidade Universitária – Recife – PE – Brasil – 50670-901

E-mail: sluna@npd.ufpe.br

Alno@npd.ufpe.br

 

 

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CERÂMICAS DO SÍTIO JUSTINO


 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FOTO 1 - Cachimbos

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FOTO 2 – Cerâmica Corrugada

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FOTO 3 – Cerâmica Alisada/Excisa/Incisa

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FOTO 4 – Cerâmica Ponteada-Arrastado

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FOTO 5 – Cerâmica Marcada com instrumentos de ponta

 

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FOTO 6 – Cerâmica Aplicada em forma de roletes

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FOTO 7 – Cerâmica Roletada/Marcada com Esteira

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FOTO 8 – Cerâmica Roletada

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FOTO 9 – Cerâmica Excisa

 

 

 

 

 

 

 

 

PESSOAL TÉCNICO ATUAL DO PAX

 

 

ARQUEÓLOGOS

-              Maria Cleonice de Souza Vergne

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