PROJETO
FINANCIADO PELA CHESF
*Coordenadora do Curso de
Pós-Graduação
em História, UFPe. Assessora
do PAX.
Gabriela Martin
O POVOAMENTO PRÉ-HISTÓRICO
DO VALE DO SÃO FRANCISCO
Documento 13 1998
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
REITOR: Prof. Dr. José Fernandes de Lima
VICE-REITOR: Prof. Dr. Josué Modesto dos Passos Subrinho
PROJETO ARQUEOLÓGICO DE XINGÓ - PAX
COORDENADOR GERAL:
Prof. Dr. José Alexandre F. Diniz
COORDENADORES TÉCNICOS:
Arqueóloga Maria Cleonice de Souza Vergne
Arqueóloga Suely Luna
Os CADERNOS DE ARQUEOLOGIA, publicação seriada do Projeto Arqueológico de Xingó, que têm por objetivo a divulgação de resultados de pesquisas produzidas na área, contam com duas séries: 1) Documentos, que publicam versões simplificadas de relatórios oficiais do Projeto, e 2) Textos, que publicam trabalhos de pesquisas independentes. de autoria de membros e assessores do Projeto ou de outros pesquisadores.
No dia quatro de outubro de 1501, dia de São Francisco, o italiano Américo Vespúcio descobrira a foz de um rio chamado Paraná pelos indígenas, que recebeu então o nome do santo de Assis. O destino trágico das populações nativas que habitavam nas margens do grande rio nordestino desde há dez mil anos, foi selado nessa data, mesmo que a colonização européia do vale sanfranciscano ainda demorasse algumas décadas.
O São Francisco é o grande rio do Nordeste, e tem extraordinária importância na vida regional. Suas cabeceiras estão situadas no planalto mineiro, de modo que o rio “nordestino” é principalmente o seu médio e o baixo curso. Do Planalto da Borborema recebe tributários temporários de Pernambuco e Alagoas: o Pajeú e o Moxotó. A grande bacia do São Francisco foi um centro de atração e caminho natural de grupos pré-históricos desde os fins do pleistoceno. A partir do relato dos missioneiros, aventureiros e viajantes que se adentraram nos sertões do São Francisco, desde os começos da colonização, temos informações dos habitantes indígenas do grande vale, da sua resistência e seu paulatino extermínio ou fuga a lugares quase inacessíveis nas serras circundantes. Na atualidade, os Pankararú, Atikum, Kimbiwá na margem pernambucana, os Truká da ilha da Assunção e os Kiriri, Tuxá e Pankararé, na Bahia, são remanescentes daquelas populações que, em levas sucessivas, foram ocupando o médio e baixo vale sanfranciscano a partir do oitavo milênio a. C.
Para o conhecimento dos indígenas pré-históricos do vale do São Francisco, podemos apoiar-nos em três grupos de fontes básicas: os relatos dos missioneiros que pela primeira vez entraram em contato com essas populações, como por exemplo a Relação de uma missão no Rio São Francisco, do capuchinho francês Frei Martin de Nantes, ou o relato de Frei Bernardo, seu companheiro; os primeiros trabalhos de etnólogos tais como Carlos Estevão de Oliveira e Estevão Pinto, autor, este último, da obra, Os indígenas do Nordeste, escrita e publicada entre 1935 e 1938 e os resultados das pesquisas arqueológicas de campo realizadas, principalmente, a partir das missões de salvamento apoiadas pela CHESF, durante a construção dos reservatórios de Sobradinho, Itaparica e Xingó. Outros dados nos são também fornecidos pelas pesquisas no alto vale, dirigidas por P. I. Schmitz, no Projeto Serra Geral, e pelos trabalhos de Maria Beltrão como coordenadora geral do Projeto Central, na depressão sanfranciscana e na Chapada Diamantina. Porém e apesar da indubitável acumulação de dados históricos, etnográficos e arqueológicos relacionados com ocupações indígenas, a história do vale do São Francisco ainda está por ser escrita, enquanto não se proceda à publicação da farta documentação levantada, ainda inédita em relatórios de escavações e prospecções arqueológicas.
1. O PROJETO SOBRADINHO DE SALVAMENTO
ARQUEOLÓGICO
Na década de 70, Calderón encarregou-se do Projeto Sobradinho de Salvamento Arqueológico, quando da construção da barragem de Sobradinho na Bahia, que inundou 4000 quilômetros quadrados do vale do São Francisco. Na realidade Calderón não participou das pesquisas de campo, que foram apenas prospecções, pois não se realizaram escavações arqueológicas nesse projeto e sim apenas algumas sondagens. A pesquisa ficou sob a responsabilidade direta dos seus discípulos Iara de Atayde e Ivan Dórea Soares, os quais assinalaram sítios arqueológicos e coletaram material lítico e cerâmico na área do futuro reservatório. Foram então registrados em torno de 50 sítios pré-históricos nos municípios de Casa Nova, Remanso, Pilão Arcada e Barra, na margem esquerda do rio e em Juazeiro, Sento Sé e Xique-Xique pelo lado direito. No relatório publicado, os autores da pesquisa fazem pequenas descrições dos sítios visitados, embora não se chegara a realizar estudos completos dos materiais coletados.
Durante os trabalhos do Projeto Sobradinho foram registrados abrigos com pinturas rupestres que temos filiado à tradição Agreste. Essa tradição já foi assinalada por vários autores praticamente em todos os Estados do Nordeste brasileiro (A. Aguiar, 1982,1986; N. Guidon,1981, 1985; A. M. Pessis, 1992; G. Martin, 1993, 1996) e as diversas subtradições com suas variáveis regionais ampliam-se cada vez mais com a descoberta de novos abrigos pintados. Oito sítios com pinturas rupestres, que proponho serem chamadas de sub-tradição Sobradinho, foram localizados pela equipe de Calderón durante o Projeto Sobradinho de Salvamento Arqueológico.
No vale médio do rio São Francisco foi implantado, entre 1982 e 1988, o Projeto Itaparica de Salvamento Arqueológico, que pretendia identificar e resgatar os sítios arqueológicos da grande área que seria inundada pelo lago artificial de Itaparica que, atualmente, alimenta a hidrelétrica do mesmo nome. O projeto foi financiado pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco – CHESF, responsável pela construção da barragem e da usina elétrica. O projeto arqueológico posteriormente ampliou-se com a realização de pesquisas antropológicas nas áreas indígenas dos Pankararu e dos Atikum, em Tacaratu e Floresta (PE), além de um levantamento documental da ocupação colonial do vale.
As pesquisas arqueológicas, no lado pernambucano, foram realizadas pela Universidade Federal de Pernambuco, sob minha coordenação, nos municípios de Petrolândia, Itacuruba, Floresta e Belém do São Francisco. Do lado baiano trabalharam arqueólogos do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal da Bahia, sob a coordenação do antropólogo Pedro Agostinho e do arqueólogo Carlos Etchevarne (1993, 1995), nos municípios de Chorrorro, Rodelas e Glória.
As escavações que, simultaneamente, realizaram-se nas duas margens, permitiram se obter um quadro, embora incompleto, da ocupação humana pré-histórica dessa parte do vale. Realizaram-se prospecções extensivas e intensivas nos terraços fluviais e nas serras circundantes. No trecho do vale que se encontrava dentro da cota de inundação foram também levantadas as numerosas gravuras rupestres que, por mais de um quilômetro, existiam na beira do rio, perto de Petrolândia. Com menor densidade, elas se repetiam na margem direita onde a equipe da Bahia localizara gravuras rupestres nos sítios Pedra da Moeda, Bebedouro das Pedras e Itacoatiara, em Rodelas.
Foram escavados três abrigos no lado pernambucano do rio: o Abrigo do Sol Poente, o sítio Letreiro do Sobrado e a Gruta do Padre, em Petrolândia. No lado baiano escavou-se o conjunto chamado Itacoatiara, formado por sítios abertos e pequenos abrigos (I a XI) com gravuras rupestres e também estabelecimentos cerâmicos sobre dunas de Zorobabel e Jacó, em Rodelas.
As pesquisas no lado pernambucano foram intensas durante o período de construção da barragem formadora do lago. Depois da inundação da área do reservatório, continuaram ainda nas áreas limítrofes e fora da cota de inundação. Foram, porém, interrompidas pelas dificuldades inerentes a uma área isolada e longe dos centros acadêmicos, o que implicava, obviamente, enormes gastos financeiros. Conseguiu-se, porém, o conhecimento básico de um enclave arqueológico com epicentro na cachoeira de Itaparica, em Petrolância, que deu nome ao projeto.
Nas pesquisas arqueológicas do Projeto Itaparica, com as deficiências e possibilidades que um projeto de salvamento comporta, pretendia-se, inicialmente, assentar as bases de uma pesquisa sistemática que permitisse o conhecimento da ocupação humana do São Francisco na pré-história, no trecho em que as circunstâncias especiais da construção de uma hidrelétrica oferecia. Realizaram-se, assim, prospecções arqueológicas ao longo do vale, constatando-se, basicamente, dois tipos de assentamento de caçadores coletores: sítios abertos e abrigos sob-rocha. Os primeiros, nos terraços fluviais do vale arcaico, assinalados por grandes concentrações de material lítico lascado, mas com pouca ou nenhuma profundidade estratigráfica, indicavam acampaments temporários; os abrigos sob-rocha, perto do rio, apresentaram ocupações humanas mais longas, determinadas pelas seqüências estratigráficas. Os assentamentos de agricultores ceramistas, que poderíamos chamar de aldeias neolíticas, em sua maior concentração, encontravam-se nas ilhas do São Francisco: ilha de Zorobabel, ilha de Itacuruba, ilha da Viúva, ilha do Pontal e ilha da Assunção. Com água próxima e solo fértil, essas ilhas, ao longo do curso médio do São Francisco, foram intensamente ocupadas por grupos pré-históricos de agricultores e depois pelos aldeamentos missioneiros.
3. O PROJETO XINGÓ DE SALVAMENTO ARQUEOLÓGICO
Desenvolveu-se durante cinco anos, até o enchimento da barragem de Xingó entre os Estados de Sergipe e Alagoas. Os trabalhos de campo foram coordenados por Cleonice Vergne sob a responsabilidade da Universidade Federal de Sergipe, embora se contasse, também, com consultores especializados da Fundação do Museu do Homem Americano – FUNDHAM e do Núcleo de Estudos Arqueológicos da Universidade Federal de Pernambuco. Das prospecções realizadas em ambas as margens do São Francisco, nos estados citados, resultaram a descoberta de mais de uma centena de sítios arqueológicos, entre abertos e abrigos sob-rocha. Vários desses abrigos apresentaram pinturas rupestres das tradições Nordeste e Agreste e possivelmente, também, da tradição São Francisco. O corpus rupestre dessa grande área arqueológica encontra-se ainda em fase preliminar de estudo.
O achado arqueológico de maior importância no projeto Xingó, foi, sem dúvida, a descoberta de dois cemitérios indígenas: o Sítio Justino, na margem sergipana e o Sítio São José, no lado alagoano (C. Vergne, 1995-96). O Sítio do Justino foi descoberto em 1990 na fazenda Cabeça de Nego, em Canindé de São Francisco, num terraço na confluência do riacho Curituba com o São Francisco. Foi ocupado durante períodos compreendidos entre 2000 e 8000 anos BP, e duas centenas de esqueletos levantados, entre completos e incompletos, permitem uma estimativa dos rituais fúnebres empregados pelos habitantes pré-históricos do baixo vale do São Francisco. Ocupado por vários grupos ceramistas, em diferentes épocas, os vasilhames cerâmicos formam parte do mobiliário fúnebre. Num enterramento no qual o corpo foi deitado em decúbito dorsal completo com os braços esticados ao longo do corpo, foram colocadas duas urnas cerâmicas sobre a cabeça e o abdômen do defunto. Ritual semelhante foi também observado em dois sítios com enterramentos escavados por V. Calderón em Curaça (BA), no vale médio do São Francisco. Um dos enterramentos da Toca do Gongo, em São Raimundo Nonato, apresentava, também, um vaso de cerâmica sobre a cabeça, e foi datado em 2090±110 anos BP.
Noutro enterramento do Sítio Justino, a parte superior do crânio foi depositada sobre uma laje de pedra recortada em forma circular e outra laje semelhante foi colocada também sobre o abdômen. O crânio de outro indivíduo foi cuidadosamente serrado no sentido longitudinal e as duas partes enterradas juntas com o resto do corpo. Não temos elementos para deduzir se o macabro ritual foi efetuado imediatamente depois da morte ou numa fase secundária da ritualização. A variedade dos rituais e das formas de enterramento no cemitério do Justino é verdadeiramente notável, mas não podemos tampouco afirmar se esses rituais são exclusivos de indivíduos do sexo masculino ou feminino, pois não se realizaram ainda os estudos esqueletais do conjunto funerário do sítio. Ossos desarticulados indicam a prática de ritual secundário e se observa, também, a destruição de enterramentos no ato de deposição de outros mais recentes. Merece registro a preparação de um esqueleto dentro de uma urna, cujos ossos foram cuidadosamente cortados e polidos nas epífases; o crânio foi serrado no sentido longitudinal, as bordas foram também polidas e uma metade do crânio foi depois encaixada dentro da outra. Além de vasilhames completos que acompanham os esqueletos, observa-se nas camadas superiores do sítio grandes quantidades de cerâmica fragmentada, que parecem produto de ocupação de moradia. Esse fato poderia significar que o sítio pode ter sido também utilizado como aldeia e que os mortos foram enterrados nos mesmos lugares de habitação, fato aliás comum entre grupos pré-históricos ceramistas. A presença de fogueiras indicaria a afirmativa anterior. Existem também marcas de fogueiras rituais sobre os enterramentos. Além das sepulturas singularmente ritualizadas, a maioria foi de ritual simples com apenas o corpo depositado em decúbito lateral com as pernas fletidas e sem mobiliário.
O estudo detalhado dos rituais fúnebres do Sítio Justino com indicação do sexo e da idade dos indivíduos enterrados, proporcionará, com certeza, dados preciosos para o conhecimento da vida social e do universo simbólico dos grupos étnicos que ocuparam o sítio.
4. OS PRIMEIROS HABITANTES DO VALE DO SÃO
FRANCISCO
Os primeiros homens que chegaram ao Nordeste brasileiro pertenciam a grupos mongolóides como, aliás, todos os habitantes das Américas anteriores à colonização européia. Dentro das naturais variedades, existe, portanto, uma homogeneidade indiscutível nos diferentes grupos humanos brasileiros, o que identifica todos os índios sul-americanos como oriundos de uma mesma origem. Admite-se que os índios brasileiros chegados ao Nordeste são os descendentes de levas arcaicas que atravessaram o estreito de Bering, alguns milhares de anos antes. Mesmo que, periodicamente, levante-se a conjetura da existência de outras vias de acesso, que poderiam ter dado lugar à chegada na América de grupos humanos em épocas pleistocênicas, nada pode ser provado até o momento.
Os grupos humanos que atravessaram o Pacífico e chegaram às costas orientais americanas já deviam possuir tecnologia neolítica e não são anteriores a 5000 BP, a julgar pelas evidências conhecidas. Quanto à possibilidade de uma via transatlântica de chegada pré-histórica ao Brasil, mesmo se tratando de uma conjetura sugestiva, a teoria não apresenta, por enquanto, apoio científico.
As primeiras levas de paleoíndios chegadas às ribeiras do médio São Francisco datam do oitavo milênio BP, e devem ter chegado ao vale desde o planalto goiano, das cabeceiras do alto São Francisco e pela ampla rede de afluentes que desembocam no grande rio nordestino no SO da Bahia. Ocupações humanas muito antigas foram assinaladas nos vales dos rios Pratudão, Formoso e Correntina formadores do Corrente, afluente por sua vez do São Francisco, nos municípios de Coribe e Santa Maria da Vitória (P. I. Schmitz 1994; 1996; 1997). Prospecções em áreas de cerrado e de caatinga arbórea, assinalaram em torno de 60 sítios pré-históricos, entre abrigos calcáreos e ocupações em lugares abertos pré-cerâmicos e cerâmicos. Os resultados dessas pesquisas evidenciaram sequências estratigráficas que demonstraram a presença de caçadores-coletores diversificados, nessa área da depressão sanfranciscana, a partir de 9000 anos BP. Ocupações mais antigas foram também detectadas no abrigo Morro Furado, em Coribe, onde se obtiveram cronologias com sequências estratigráficas a partir de mil anos BP, com estratos datados em 5000, 6000 e 9000 BP anos em números redondos, além de datações pleistocênicas obtidas de lentes de moluscos entre cinzas que podem ter sido queimados para serem consumidos, datados de 16, 18, 21 e 26 mil anos BP.
Não existem restos ósseos humanos no Brasil, datados com anterioridade a dez mil anos antes do presente e embora os vestígios da cultura material sejam suficiente para a identificação de um grupo étnico, a existência de amostras ósseas permite acrescentar uma infinidade de dados para se completar o perfil cultural de um determinado grupo pré-histórico. Entre os poucos achados esqueletais coletados na região do vale sanfranciscano, citaremos os dois crânios dolicocéfalos da Gruta das Onças, em Jacobina, na Bahia, descritos pela antropóloga Marília Carvalho Alvim, como semelhantes ao Homem de Lagoa Santa. Pertencem a uma mulher jovem e a uma criança de nove anos de idade aproximadamente. Os crânios não puderam ser datados porque foram arrastados pelas águas que penetraram na gruta. Coletados com restos de fauna extinta – preguiça gigante principalmente – apresentam, sem dúvida, características arcaicas. Os restos esqueletais coletados na Gruta do Padre, além de queimados, são de cronologias que não ultrapassam os dois mil anos BP. Acreditamos, porém, que o estudo detalhado dos esqueletos do Sítio Justino, em Sergipe, cujas primeiras ocupações remontam-se além dos oito mil anos, fornecerão subsídios preciosos para o conhecimento das primeiras povoações que habitaram a região sanfranciscana na pré-história.

Mapa Hidrográfico do Nordeste do Brasil, mapa base:
Atlas Nacional do Brasil
IBGE/SUDENE Região Nordeste, Rio de Janeiro, 1985

Projetos
arqueológicos desenvolvidos no médio-baixo São Francisco
5. OS CAÇADORES DA TRADIÇÃO ITAPARICA
O vale do São Francisco foi centro de atração de grupos étnicos pré-históricos desde os começos do holoceno, a partir de 10.000 anos BP, quando um longo período extremamente seco deve ter levado as populações para a área do grande rio. Temos datações seguras dessas ocupações desde 7000 – 6000 anos BP, mas pelas datações obtidas no planalto goiano e a semelhança dos implementos líticos é possível que as primeiras ocupações ocorram já no décimo milênio.
A partir da escavação da Gruta do Padre, em Petrolândia, na margem pernambucana do São Francisco, Valentin Calderón, arqueólogo espanhol radicado na Bahia, estabeleceu em 1969, um horizonte lítico conhecido como Tradição Itaparica, para designar ocupações de caçadores-coletores diversificados em grutas e abrigos, que apresentam material lítico característico. Posteriormente, através das pesquisas realizadas por P. I. Schmitz e A. S. Barbosa, no planalto goiano, identificaram-se abrigos dessa tradição na região de Serranópolis. A partir daí, a tradição Itaparica foi dividida em dois períodos chamados pelos autores citados de fase Paranaíba e fase Serranópolis. A primeira é mais antiga, começaria em torno de 11000 anos BP, e a segunda, posterior, a partir de 7000 anos BP. O material lítico da fase Paranaíba é de tamanho mais reduzido e técnica de retoque mais cuidada que no período posterior ou fase Serranópolis.
Os instrumentos líticos dos sítios considerados da tradição Itaparica, no Nordeste, são principalmente raspadores unifaciais plano-convexos (lesmas) de sílex, de arenito silicificado e de calcedônia, raspadores circulares, semi-circulares, laterais e na forma de leque, alguns finamente retocados por pressão e furadores "de ombro" bem característicos. Aparecem também algumas lâminas. Essas indústrias "Itaparica" foram localizadas no vale do São Francisco, áreas de Serra Geral, Central, Sobradinho e Itaparica, nos estados de Pernambuco e da Bahia, e em Bom Jardim, também em Pernambuco, além da área arqueológica de São Raimundo Nonato, no Piauí. Nos períodos mais recentes da tradição, em torno de 4000 anos BP, aparecem algumas tentativas de elaboração de pontas com pedúnculo, ainda unifaciais.
Os restos alimentares coletados nos abrigos goianos e nos vales do São Francisco se apresentam como refúgio de caçadores-pescadores-coletores generalizados, consumidores de micro-fauna, gastrópodes e peixes.
A partir de correlações lingüísticas realizadas por Betty Meggers, A. S. Barbosa (1992) sugere que os caçadores da tradição Itaparica sejam os formadores dos grupos lingüísticos Jê disseminados pelo interior do Brasil, incluído o Nordeste. Basicamente, o horizonte lítico da tradição Itaparica estende-se por áreas de cerrado, rico em fauna diversificada e de caatinga no Nordeste, de fauna menos densa, razão também pela qual os grupos nordestinos procuraram com maior intensidade os vales dos rios. Essa tradição se estenderia também por Minas Gerais, segundo os resultados das escavações realizadas por Ondemar Dias, na Gruta do Gentio II, e na Lapa da Foice, onde os níveis mais antigos chegaram a 8000 anos BP com a presença de lesmas, também coletadas nos níveis intermediários datados de 4000 anos BP.
Contrariamente ao que se poderia se esperar, as indústrias líticas coletadas na área de Xingó não apresentam os elementos caracterizadores da tradição Itaparica. Um primeiro estudo preliminar do material lítico do ítio Justino (O. Jerônimo e D. Cisneiros, 1997), não registrou a presença de lesmas, raspadores circulares, raspadores duplos ou furadores quepossam ser atribuídos a esse horizonte lítico. Levando-se em conta que as indústrias líticas do cemitério do Justino estão datadas a partir do nono milênio, com datações também entre 6000 e 4000 anos BP era de se esperar achados dos períodos mais antigos da tradição, o que não aconteceu. Trata-se, pelo contrário, de artefatos pouco significativos e pouco elaborados, com predominância de lascamento bipolar para a obtenção de lascas pouco ou nada retocadas.
Na realidade, não se conhecem os limites geográficos da tradição Itaparica como representativa de um horizonte de caçadores arcaicos do holoceno, porém é evidente que numerosos grupos de caçadores povoaram os sertões nordestinos desde os começos do holoceno em datas que ultrapassam os dez mil anos, ocupando abrigos e terraços ao ar livre e preparando implementos de pedra lascada, entre os quais as lesmas. Os materiais mais antigos são melhor elaborados e de menor tamanho e, em torno de 3000 anos BP, nota-se abandono das técnicas mais cuidadas, com a presença de implementos maiores e mais grosseiros. Entre 2500 – 1000 anos BP, observa-se a perda da cuidada tecnologia lítica que caracteriza o horizonte conhecido como Itaparica. Mais recentemente, na década de 90, indústrias "Itaparica" foram detectadas em áreas de dunas, no litoral do Rio Grande do Norte (P. T. de S. Albuquerque, 1994). Na sua maioria são lascas e artefatos unifaciais sobre sílex, calcedônia, jaspe e quartzo. O que mais impressiona nesses sítios dunares, provavelmente acampamentos temporários sazonais, é a grande quantidade de material lítico que aflora, à primeira vista, na superfície das dunas, restos de lascamentos em forma de pequenas estilhas e raspadores terminais, duplos e plano-convexos (lesmas) semi-corticais e descorticados e seus fragmentos resultantes do uso e artefatos incompletos, que foram abandonadas durante o processo de lascamento. Encontram-se, também, núcleos debitados e suas respectivas lascas, o que permite a recomposição do núcleo primitivo. Essas evidências demonstram que os artefatos foram preparados in situ, a partir de núcleos de sílex transportados de longas distâncias ou procedentes de seixos rolados. A presença de artefatos líticos da tradição Itaparica em sítios de litoral, abre uma nova perspectiva ao estudo desse horizonte cultural, considerado, tradicionalmente, como exclusivo de grupos étnicos adaptados ao semi-árido sertanejo.
De modo geral, os homens que habitaram o vale médio do São Francisco na pré-história, ocupavam os abrigos e terraços próximos ao rio sem se afastar muito dele, pois ali era onde encontravam seu alimento. Formando pequenos grupos de caçadores-coletores, com grande mobilidade, percorriam grandes extensões do vale, caçando, pescando e preparando seus artefatos de pedra, como parecem indicar a densidade e a extensão do material lítico espalhado em diversos sítios nas proximidades do rio. Ocuparam pequenos abrigos, não longe das suas margens, formados nas rochas sedimentares dos serrotes-testemunhos e estabeleceram-se, também, nas margens de antigas lagoas, resíduos do vale arcaico. Exemplos de ocupações pré-históricas em áreas de antigas lagoas encontramos, também, em Salgueiro, PE, no distrito de Conceição das Creoulas, no vale do rio Terra Nova, tributário do São Francisco. As escavações realizadas na Lagoa da Pedra evidenciaram ocupações pré-históricas no chamado "Complexo Lagunar das Caraíbas". Em consequência da seca de 1992-93 pequenas lagoas e "cacimbas" secaram, evidenciando a presença de ossos de mamíferos pleistocênicos, apaênicos, aparentemente associados a material lítico lascado. A fauna compõe-se de preguiças gigantes (Eremotherium lundi), tatus (Pampatherium humbolti, Lund), Glyptodon clavipes, Toxodon platensis, mastodonte (Haplomastodon warringi), Hippidon, Palacolama e tigre-dentes-de-sabre (Smilodon populator).
Os sítios abertos sucediam-se, sem solução de continuidade, ao longo do rio São Francisco, tanto na área da cota de inundação do lago de Itaparica como fora dela, nos terraços mais antigos do vale arcaico. Esses sítios, em ambas as margens, apresentaram material lítico abundante na superfície, indicando, em vários casos, sítios-oficinas de lascamento, nos quais foram aproveitados seixos rolados, para a fabricação dos artefatos. Estendem-se por quilômetros ao longo do vale e, na mergem pernambucana, ocupam uma extensa área entre o rio e os "serrotes" que a bordejam.
Valentin Calderón, que já assinalara a importância dos sítios abertos no vale médio do São Francisco, os descrevia como lugares aluvionais, cobertos de seixos rolados, de tamanho médio, que serviram de matéria-prima para os utensílios ali encontrados. Registrou que se situavam em montículos, nas proximidades do rio, riachos e nas ilhas do São Francisco. Observou também Calderón que alguns dos sítios abertos apresentavam uma quantidade de fragmentos e resíduos de lascamento, verdadeiramente impressionante e considerou que tais sítios eram, sobretudo, oficinas de lascamento de artefatos líticos, pois, na maioria dos casos, a situação topográfica dos mesmos não oferecia condições para serem utilizados como acampamentos.
A densidade e a extensão do material lítico nos sítios abertos ao longo do rio parecem-nos indicar a concentração de numerosos grupos humanos com acampamentos temporários, pois o material, mesmo abundante, é sempre superficial, sem refugo estratigráfico e sem formar manchas humíferas indicadoras de assentamentos humanos. O clima extremamente seco, que parece ter caracterizado um longo período, entre 8000 e 6000 anos BP, em grandes áreas interioranas do NE, teria tornado possível a ocupação desses lugares abertos, com precários acampamentos, e explicaria também a pouca ou nenhuma ocupação dos abrigos sob rocha mais afastados do rio, na sua maioria sem indícios de ocupação ou com ocupações muito curtas.
5.1 A Gruta do Padre, Petrolândia, (Pernambuco)
A Gruta do Padre, a partir de cuja escavação arqueológica se fixou a tradição Itaparica, encontra-se hoje sob as águas do lago artificial de Itaparica, no vale do São Francisco. No seu lugar emerge uma pequena ilha, península nas épocas de estiagem, de forma cônica, restos da colina onde se assentara um dos mais conhecidos sítios arqueológicos do Nordeste e que deu nome a uma das mais antigas tradições pré-históricas do Brasil. O sítio serviu de ponto de partida para a identificação das indústrias líticas pré-históricas do vale médio do São Francisco. Situado num lugar privilegiado, a poucos metros sobre a cachoeira de Itaparica, desde a sua ampla entrada era possível contemplar-se as águas do rio. Os índios Pankararu, cuja aldeia está próxima e que nos auxiliaram durante a escavação da gruta, desciam com a maior facilidade até as margens da cachoeira para banhar-se e apanhar água. Medindo 8 por 5,20 metros, possuía área habitável aproximada de 41 metros quadrados, o que permitiu sua ocupação permanente por grupos de caçadores durante longo período. Por ser de fácil acesso e próxima à cidade de Petrolândia, foi sempre muito frequentada por visitantes e buscadores de tesouros, fato que prejudicou, em parte, a estratigrafia e a estrutura arqueológica do sítio.
A história arqueológica da pequena caverna remonta-se aos anos trinta, década em que o etnólogo Carlos Estevão realizou as primeiras escavações. A partir daí mais duas etapas assinalam as pesquisas arqueológicas na Gruta do Padre: as escavações de Valentin Calderón, nos anos sessenta, e as realizadas pelo Núcleo de Estudos Arqueológicos da UFPE, durante o Projeto Itaparica de Salvamento Arqueológico quando se completou a escavação. A segunda parte foi realizada pouco antes da inundação do sítio, e consistiu na retirada dos grandes blocos desprendidos do teto, existentes no lado esquerdo do abrigo. Os materiais arqueológicos e os estratos que, por ventura, poderiam aparecer por debaixo dos blocos eram, talvez, os da única área não violada de todo o sítio, suposição posteriormente confirmada. A existência dessa área intocada revestia-se de especial importância pelo fato, já citado, de numerosas incursões humanas que o sítio sofrera, seja de arqueólogos ou mesmo curiosos. O próprio Calderón, que foi quem teve possibilidades de escavar a maior área da gruta, não poderia ter absoluta certeza de que a estratigrafia da mesma não fora perturbada anteriormente pelos trabalhos de Carlos Estevão.
Pelos motivos expostos, cobrava importância o espaço da gruta que escavamos o qual, mesmo sendo pequeno – escassos sete metros quadrados – oferecia a total segurança de não ter sido anteriormente tumultuado. Nessa pequena área, porém, assinalamos grande concentração de materiais arqueológicos distribuídos em três camadas de ocupação humana. A Gruta do Padre teve duas ocupações diferentes e perfeitamente delimitadas. Uma primeira ocupação, na qual serviu como abrigo de caçadores e uma posterior na qual foi utilizada como cemitério. Essas duas ocupações básicas estavam, também, subdivididas em períodos bem delimitados, nos quais as ocupações se modificaram. No longo período em que serviria de refúgio de caçadores, uma primeira fase, compreendida entre 7000-4500 anos BP, está caracterizada por instrumentos de fino acabamento como raspadores unifaciais plano-convexos retocados (lesmas) e lâminas retocadas em sílex e calcedônia. No segundo período, também utilizado como abrigo de caçadores, parte dos instrumentos foram trabalhados dentro da gruta, a partir de seixos de tamanho médio. Dessa ocupação, foi coletado abundante material lítico na forma de lascas e núcleos descorticados. A cronologia deste período situa-se em torno de 4000-2500 anos BP, segundo datações obtidas por Carbono-14.
A Gruta do Padre foi ocupada como necrópole durante um longo período de tempo, possivelmente além de mil anos, cujos limites cronológicos são difíceis de se determinar, mas que podem ser estimados a partir de 2000 BP pelas cronologias obtidas. Várias são as razões da incerteza em relação aos limites cronológicos da ocupação da gruta para fins funerários. Quando Carlos Estevão escavou parte da mesma em 1937, as quantidades de material arqueológico coletado, sejam ossos humanos ou enxoval funerário, movimentaram uma massa considerável de sedimentos arqueológicos e, possivelmente, houve perturbação de camadas mais antigas da ocupação anterior à necrópole. A escavação de Calderón foi, sem dúvida, muito mais criteriosa e realizada estratigraficamente por quadrículas, porém como grande parte do sítio já havia sido perturbado, é duvidoso que tenha conseguido obter dados exatos sobre a estratigrafia do cemitério.
Nos escassos sete metros quadrados que foi possível escavar depois da remoção dos blocos tombados do conglomerado arenítico da gruta, foram coletados 751 artefatos líticos, com maior concentração nas camadas inferiores e que correspondem à ocupação do abrigo como refúgio de caçadores. Muitos desses artefatos devem ter sido confeccionados in situ, a julgar pelos restos de lascamento coletados. A matéria-prima utilizada foi o sílex, o quartzo, o quartzito, o arenito e o arenito silicificado, a calcedônia e alguns raros exemplares de riolito. Os artefatos das camadas mais profundas da gruta que correspondem às ocupações mais antigas (7000-5000 anos BP) aparecem finamente retocados por pressão, em sílex e calcedônia, principalmente na forma de raspadores plano-convexos. Já nas camadas superiores (entre 4000-2000 anos BP), os instrumentos são pouco refinados, de tamanho maior e pouco ou nenhum retoque, muitos deles lascados sumariamente a partir de seixos procedentes do conglomerado da própria gruta.
Em todas as camadas em que a escavação da Gruta do Padre foi dividida apareceram restos ósseos humanos em quantidades inversas à concentração do material lítico, ou seja, abundância nas camadas mais recentes da deposição estratigráfica e decrescente nas mais profundas. Entre o material ósseo coletado identificaram-se restos de duas crianças neo-natas, três com sete e doze anos e quatro adultos, todos muito fragmentados e queimados, misturados a ossos de animais de pequeno porte, tais como aves, roedores e marsupiais, além de espinhas de peixe e fauna malacológica que fazia parte tanto da dieta alimentar como do ritual funerário da incineração.
No período mais antigo de ocupação da gruta, o clima era mais seco, e a partir da formação dos dois estratos superiores, uma fase mais úmida determinou contínuas infiltrações e desprendimentos, o que culminou com a queda dos grandes blocos que protegeram o sedimento arqueológico.
Perto da Gruta do Padre existia, também, uma pequena fauna conhecida como Gruta do Anselmo e explorada anteriormente por Carlos Estavão. Nela, achou o etnógrafo, segundo suas próprias palavras, "uma camada de cinza com placas e espinhas de peixe, ossos e dentes de mamíferos, pedaços de carapaças de tatus, tarsos de aves, enfim, uma apreciável quantidade de restos de cozinha", além de "pedaços de sílex e quartzo". A posterior escavação que realizamos proporcionou 33 artefatos líticos sobre núcleos, seixos e lascas descorticadas, além de ossos de pequenos animais e sementes, vestígios relacionáveis com as ocupações recentes da vizinha Gruta do Padre.
5.2 O Abrigo do Sol Poente, Petrolância-PE
No distrito de Barrinha, Petrolândia, no Serrote Vermelho, perto do rio São Francisco, localizava-se o pequeno abrigo do Sol Poente, hoje desaparecido sob as águas do lago de Itaparica. Das escavações realizadas neste sítio, foram coletados 49 artefatos líticos de quartzo, sílex, quartzito e arenito, na forma de lascas e estilhas e, entre os instrumentos, "chopping tools", raspadores laterais e semi-circulares, material lítico aliás, que coincide com as ocupações mais recentes da Gruta do Padre. Do carvão de uma fogueira obteve-se datação radiocarbônica de 2760 anos BP.
5.3 O Abrigo do Letreiro do Sobrado,
Petrolândia-PE
Na Fazenda Experimental do Sobrado, em Petrolândia, a 700 metros aproximadamente de distância do rio São Francisco, alinha-se uma série de morros de arenito conglomerático, ruiniformes, na direção NE-SW. Ali se localiza um pequeno abrigo de 16 metros de abertura e 10 de altura, conhecido como o Letreiro do Sobrado, por apresentar um painel de gravuras rupestres ocupando uma superfície de 12 metros de comprimento por 1,00 a 1,50 metros de altura. Como está voltado para o rio São Francisco, a água é perfeitamente visível desde sua entrada e está evidente que foi utilizado intensamente por caçadores, seguramente a partir do sexto milênio. A escavação arqueológica, numa área de 15 metros quadrados aproximadamente, revelou estruturas de vinte fogueiras, algumas delas reutilizadas, como demonstrou a estratigrafia do abrigo entre 50 e 60 centímetros de profundidade. No material lítico coletado há predominância de sílex seguido do quartzo e menores quantidades de quartzito fino e grosso, calcedônia, quartzito silicificado e ardósia. Nos três estratos de ocupação se observou a evolução das indústrias líticas e suas mudanças, com artefatos de menor tamanho no estrato mais profundo e tentativa de fabricação de pontas de projétil penduculadas. A grande abundância de restos de lascamento leva-nos à conclusão de que o abrigo do Letreiro do Sobrado foi utilizado também como local de preparo de artefatos líticos, entre os quais predominam os raspadores circulares e laterais e os furadores. O interesse do abrigo está também na presença de painéis rupestres gravados e que puderam ser datados, fato extremamente difícil nos registros rupestres, especialmente em relação às gravuras que se encontram sobre blocos ao longo dos cursos d'água. Neste caso, a decomposição lenta, porém continuada, do arenito de suporte das gravuras, possibilitou seu relacionamento com as camadas estratigráficas, ao desprender-se das paredes fragmentos gravados. Observa-se claramente que, à medida que lajes do arenito gravado caíram das paredes do abrigo, estas foram de novo gravadas por novos ocupantes que também se serviram da rocha para afiar instrumentos. Dois fragmentos gravados e caídos no sedimento foram datados, pela proximidade das fogueiras, em 1680 e 6390 anos BP, respectivamente, demonstrando a longa ocupação do abrigo. Possivelmente foi também lugar cerimonial.
6. A ÁREA ARQUEOLÓGICA DE CENTRAL, NO NOROESTE
DA BAHIA
Na depressão sanfranciscana, no noroeste do Estado da Bahia, à margem direita do médio-baixo São Francisco, a arqueóloga Maria da Conceição Beltráo desenvolve o Projeto Central que enquadra, em sua primeira fase de pesquisa, os municípios de Central, Irecê e Xique-Xique. O projeto, iniciado em 1982, procede ao mapeamento dos sítios arqueológicos pré-históricos e históricos da área erscolhida e realizam-se escavações arqueológicas em abrigos pré-históricos sob rocha, tomando como epicentro da pesquisa o município de Central, que dá nome ao projeto. As prospecções arqueológicas orientam-se ao longo dos rios e riachos intermitentes que fazem parte da grande bacia do São Francisco. Dessa forma, na última década, foi possível apresentar-se os primeiros resultados sobre as ocupações humanas da região em estudo, durante o pleistoceno e o holoceno, e reunir-se importantes coleções de materiais líticos, cerâmicos, ósseos e malacológicos, além de numerosos registros rupestres, numa área que era desconhecida arqueologicamente até a década de 1980.
Nos relatórios e publicações de M. C. Beltrão e de seus colaboradores fala-se de centenas de grutas e abrigos em afloramentos calcários e arenítico-quartzíticos, cobertos de pinturas rupestres pertencentes a diversas tradições. A importância desses achados arqueológicos como um todo teve o impacto que representou o da Toca da Esperança e suas imprevisíveis cronologias do pleistoceno médio. Situada a 11 quilômetros da cidade de Central, no calcário pré-cambiano conhecido como serra da Pedra Calcária, a 610 metros sobre o nível do mar, a Toca da Esperança forma uma sala de uns 325 metros quadrados e que, segundo os responsáveis pela escavação, continha depósitos pleistocènicos de 150 centímetros de espessura. A escavação arqueológica desta gruta revelou existência de depósitos quaternários que continham, sob uma crosta carbonática, ossos extremamente fossilizados de fauna extinta, entre os quais predominavam os de equídeos. As datações obtidas pelo método do urânio/tório nos ossos coletados deram a essa fauna uma idade em torno dos 300.000 anos. Os autores do trabalho, publicado em "L'Anthropologie", afirmaram que os artefatos líticos de quartzo e quartzito, coletados entre os ossos de mega-fauna extinta, somente poderiam ter sido transportados pela mão humana, e, em conseqüência, consideraram a Toca da Esperança o mais antigo sítio conhecido no continente americano com indústria lítica, o que significaria a presença do homem na América no pleistoceno médio, além da possibilidade de que o homo erectus houvesse chegado ao continente americano através da Ásia, utilizando o istmo de Bering, durante uma das grandes regressões do nível dos oceanos no quaternário.
Como era de se esperar, as afirmações contidas no artigo assinado conjuntamente por H. de Lumley, M. C. Beltrão, Y. Yokoyama, J. Labeyrie, J. Danon, G. Delibrias, C. Falguerés e J. L. Bischoff foram recebidas pela comunidade científica com dúvidas e restrições, compreensíveis até certo ponto, pelo impacto que um achado dessa categoria significava para as mais tradicionais teorias e dados conhecidos sobre o povoamento da América.
As escavações na Toca da Esperança haviam começado em 1985 e desenvolveram-se durante os dois anos seguintes, evidenciando quatro níveis estratigráficos formados, de cima para baixo, por uma camada superficial de ocupação que forneceu datações radiocarbônicas entre 2000 e 6500 anos BP. Assentava-se esta sobre uma crosta calcária muito dura, de 50 centímetros de espessura, datada em 22000 anos e que, materialmente, "selava" as três camadas inferiores ricas em ossos fossilizados de fauna extinta, entre os quais foram coletados também, já na camda IV, um seixo de quartzo fraturado por percussão violenta e um chopper, além de lascas e fragmentos de seixos de quartzo e quartzito. Os ossos de paleo-fauna retirados da camada IV datados em 300.000 anos pertenciam principalmente a preguiças gigantes (Eremotherium), camélidos (Paleolamas sp.) e um tipo de cavalo (Hippidon).
Independentemente de obtenção de novas evidências que possam confirmar, no futuro, a existência do homem pleistocênico em datas insólitas para a América, a Toca da Esperança e a Toca dos Búzios, abrigo vizinho e que forma parte da mesma formação cárstica, representam importantes sítios pré-históricos que demonstram também a ocupação humana do antigo vale do São Francisco no holoceno a partir do sétimo milênio, datações que se repetem na Gruta do Padre e no Letreiro do Sobrado.
Alan Bryan e Ruth Grün escavaram também, como integrantes do Projeto Central, o Abrigo da Lesma, pequeno sítio de 21 metros quadrados na planície calcária da Chapada Diamantina, onde foram coletados artefatos líticos representados por lascas, núcleos e seixos lascados de quartzo, quartzito, calcário, sílex e calcedônia, fragmentos cerâmicos, moluscos, ossos humanos e ossos de mamíferos da fauna local atual (mocós, macacos, gambás, tatus, veados e porcos-do-mato). Obtiveram-se quatro datações radiocarbônicas entre 1137 e2712 anos BP. Como grande parte de ossos de animais foram coletados dentro de fogões estruturados, deduziu-se que se tratava de restos de alimentos.
A área arqueológica do Projeto Central, na Bahia, juntamente com o SE do Piauí e o Seridó, formam uma das três grandes "províncias" rupestres da tradição Nordeste, com uma indubitável subtradição local, cujo nome caberá definir por sua descobridora, mas que de momento chamaremos subtradição Central identificada pela riqueza dos zoomorfos de espécies reconhecíveis e de figuras humanas formando cenas dinâmicas. Pelo menos em cinco abrigos, Maria da Conceição Beltrão identificou grafismos rupestres com signos astronômicos (sol, estrelas, cometas, lunações, etc.) que considerou pertencentes a uma tradição rupestre à qual tem chamado tradição Astronômica. O abrigo mais expressivo dessa possível tradição é a Toca do Cosmos, no município de Xique-Xique, afloramento calcário próximo ao rio Verde, afluente do São Francisco. Essa toca forma um abrigo cujo teto encontra-se coberto de grafismos representando o firmamento, segundo interpretação de Beltrão.
7. AS CULTURAS NEOLÍTICAS NO VALE DO SÃO
FRANCISCO
Consideramos como culturas neolíticas os assentamentos pré-históricos sedentários ou semi-sedentários de grupos humanos conhecedores da agricultura e da cerâmica que se assentaram nas ilhas do São Francisco, de solo mais fértil que o entorno semi-árido, e nos terraços e lugares mais altos, protegidos das enchentes e dos possíveis inimigos. O termo neolítico, de significado e limites culturais amplos, corresponde tecnologicamente a grupos humanos conhecedores da agricultura e da cerâmica mas, paralelamente aos critérios tecnológicos, o neolítico significa, também, o longo processo de evolução econômica que levou o homem a dominar os meios de produção através da agricultura e do pastoreio e com a utilização da cerâmica, conseguiu armazenar alimentos e água que lhe permitiram o sedentarismo em aldeias. Evoluiu para sociedades mais complexas, com formação de excedentes e instalação de centros cerimoniais.
Assim, todo processo que comporte cultivo de plantas e domesticação de animais na pré-história, pode ser considerado pertencente ao estágio neolítico. Note-se, porém, que a falta de animais domésticos economicamente aproveitáveis não configura, na pré-história brasileira, como aliás em quase toda a América, a existência de um neolítico segundo os parâmetros do Velho Mundo; trata-se de um neolítico "sui generis", com agricultura de subsistência, sem excedentes que estimulassem o comércio e com assentamentos semi-sedentários. Nesses termos, processos de "neolitização" podem ser constatados na pré-história do Brasil.
A agricultura nas Américas é muito antiga, tendo-se desenvolvido a partir de cultivos locais e métodos próprios e não importados do Velho Mundo, como erradamente alguns arqueólogos afirmaram. Deve ter surgido de um processo lento de observação e de práticas milenares independentes, pois assim indica a variedade das plantas americanas cultivadas, completamente diversas das do Velho Mundo, e naturalmente as formas de cultivo. É possível que já se conhecessem algumas formas de cultivos incipientes na América a partir do sétimo milênio BP. Espécies cultivadas de milho aparecem no quarto milênio. No Nordeste do Brasil a agricultura pode ter começado no terceiro milênio, com incipientes agricultores em pequenas roças de subsistência.
Mais importante que a presença de cerâmica para detectar os processos de neolitização na pré-história, é a evidência da aparição das plantas cultivadas e a adaptação a novas formas de subsistência. A separação entre ceramistas e não ceramistas em pré-história do Nordeste do Brasil, é meramente técnica e não significa, em princípio, grandes mudanças econômicas. Até os tempos históricos existiam grupos indígenas que não utilizavam cerâmica mas que praticavam algum tipo de agricultura, da mesma forma que existiam plantadores sazonais pré-cerâmicos de tomates e cabaças nos vales andinos, no sétimo milênio. A importância da cerâmica como indicadora da existência de agricultura decorre da facilidade com que ela é detectada e sua conservação, mesmo nas condições mais adversas, quando se apresenta extremamente fragmentada ou rolada. Além da cerâmica, é possível se detectar a existência da agricultura pela presença de almofarizes, mãos de pilão e sementes conservadas em abrigos e cavernas. Certos tipos de machados polidos são também associados a grupos agricultores que os usariam principalmente para cavar a terra. Porém em sítios abertos e aldeias é praticamente impossível inferir-se práticas agrícolas quando não existe a presença de cerâmica, especialmente em regiões onde, como no Brasil, não houve domesticação de animais, cujos restos são indícios seguros de sedentarismo. Por outra parte, também, não se pode descartar a existência de caçadores-coletores que utilizassem algumas formas simples de cerâmica.
A relação agricultores-ceramistas complementa-se na medida em que, no estado atual do conhecimento, é apenas ante a evidência da cerâmica pré-histórica que inferimos a presença de agricultores. Não significa isso que uma não possa existir sem a outra e, naturalmente, formas simples de vasilhames cerâmicos podem anteceder à existência da agricultura.
Através das formas e tamanhos das vasilhas deduzimos os cultivos básicos utilizados e o maior ou menor sedentarismo dos grupos étnicos. A presença de grandes vasilhames decorados denotaria maior estabilidade na ocupação de uma determinada área, e as formas abertas ou fechadas dos mesmos, a utilização massiva da mandioca ou de grãos.
Para se afirmar, com segurança, a existência de plantas cultivadas nos sítios arqueológicos, precisa-se de análises polínicas das amostras retiradas de colunas estratigráficas, mas esse tipo de pesquisa ainda é pouco praticada na pré-história brasileira.
Dos três cultivos básicos da agricultura primitiva americana, o milho, o feijão e a mandioca, a última foi o cultivo principal, na América tropical. Originária provavelmente da Amazônia colombiana, a mandioca com suas duas variedades, a "amarga" ou "brava" (Manihot esculenta, Manihot utilissima) e a "doce" (Manihot aipi) foi o alimento básico de grande parte das populações pré-históricas do Brasil, desde a Amazônia até a região subtropical, onde o milho teve maior importância.
Registro especial merecem os achados da Gruta do Bosquete, no vale do Peruaçu. Nesse sítio localizaram-se depósitos subterrâneos de alimentos, conservados pelo clima extremamente seco dessa parte de Minas Gerais, no sertão do alto médio São Francisco. Os depósitos estavam forrados com camadas de capim e palhas de milho, intercalados com cinzas e cobertos com tábuas, formando níveis superpostos. Neles se coletaram espigas de milho ainda com os grãos, além de mandioca, coquinhos, feijões, jatobá, pitomba e umbu. Havia também fibras vegetais trançadas e linhas de algodão (P. A. Junqueira e I. M. Malta, 1984). Uma fogueira situada sobre um dos silos forneceu datação de Carbono-14 de 1.100 anos BP.
As diferentes equipes de arqueólogos que têm pesquisado no vale do São Francisco detectaram ocupações de agricultores-ceramistas agrupados em aldeias, filiados a horizontes culturais neolíticos das tradições ceramistas Una, Aratu, Tupiguarani, Cabrobó e outras ainda por determinar-se, em sequências cronológicas que se remontam ao terceiro milênio BP.
Na área arqueológica do Projeto Serra Gral, no SE da Bahia e Leste de Goiás, região dos afluentes do rio Corrente, tributário por sua vez do São Francisco, P. I. Schmitz e seus colaboradores (1996), prospectaram e escavaram uma série de abrigos e grutas ocupadas por ceramistas da tradição Uma. A cerâmica Uma apresenta vasilhas pequenas e utilitárias, sem decoração, de formas globulares e em alguns casos esporádicos de formato piriforme. Acompanham essa cerâmica restos vegetais na forma de sementes e frutos da caatinga (umbu, pequi, pitomba, jatobá), algumas espécies cultivadas como milho, cabaça e algodão e restos de tecidos e trançados de fibras (Schmitz, 1996). As cronologias mais antigas da tradição ceramista Uma chegam ao terceiro milênio no Estado de Tocantins (fase Pindorama, 2370±70 BP). Existem várias datações dessa cerâmica em torno dos mil anos em Minas Gerais e Goiás, nas regiões dos formadores do São Francisco. Fragmentos de pequenas urnas globulares e uma piriforme, completa coletados na Gruta do Padre (Petrolândia, PE) poderiam ser atribuídos à tradição Uma. Essa cerâmica estava situada num estrato datado em torno de 2000 anos BP, fazendo parte do mobiliário fúnebre da gruta.
7.1 Os Ceramistas Aratu
Valentin Calderón estabeleceu a tradição Aratu a partir dos achados cerâmicos de 24 sítios prospectados no litoral baiano, em Sergipe e em Pernambuco. O nome Aratu para designar uma cultura de agricultores ceramistas foi dado a partir do sítio Guipe, no centro industrial de Aratu, a 16 quilômetros de Salvador. Procurando a possível penetração para o interior, que a cerâmica Aratu poderia ter, Calderón fez prospecções nas cabeceiras do rio Grande nos municípios de Barreiras, Catolândia e São Desidério, onde localizou oito cemitérios Aratu. Considerou, também, que a tradição ceramista Aratu estendeu-se por Pernambuco e chegou até o Se do Piauí.
Simultaneamente aos achados na Bahia, acharam-se sítios cerâmicos em Minas Gerais e São Paulo, considerados pertencentes à mesma tradição Aratu. O maior levantamento de sítios relacionados com a tradição Aratu, no sul de Minas Gerais, deve-se a Ondemar Dias, aos quais chamou fases Jaraguá, Itaci e Sapucaí, a última considerada, mais tarde, tradição independente e próxima à Aratu.
Mais recentemente, durante os anos 1995-96, Carlos Etchevarne escavou uma possível aldeia ou cemitério Aratu, na vila de Piragiba, no município de Muquém do São Francisco, na Bahia, na depressão sanfranciscana (C. Etchevarne e C. Macedo, 1997). A praça principal da vila de Piragiba, formada por uma 50 casas, está situada sobre o sítio arqueológico, de forma que as urnas funerárias, das que já foram coletads 103, localizam-se na praça e nos quintais das residências, fato que dificulta a sua identificação como aldeia ou como cemitério.
A importância da tradição Aratu está na circunstância de que não se trata apenas da localização de um tipo específico de cerâmica, mas no fato de que está perfeitamente caracterizada como uma cultura de agricultores ceramistas, formando aldeias com populações densas e ocupações demoradas, como indica a profundidade dos sedimentos arqueológicos (40, 60 e 90 cm), em comparação com as ocupações Tupiguarani que raramente ultrapassam os 30 cm e nas quais são comuns refugos de 15 a 20 cm. Nas aldeias em que se identifica o contato com os grupos Tupiguarani, assinalado pela presença da cerâmica, esta aparece sempre como intrusiva nas camadas mais tardia das aldeias Aratu, adquirida por comércio ou por ocupação violente, quando se nota a substituição dos tipos de cerâmicas dos Aratu pelos Tupiguarani.
São características básicas da cultura Aratu:
a) a cerâmica roletada, sem decoração, com as superfícies alisadas ou engobo de grafite;
b) urnas funerárias piriformes, com e sem tampa, de 70-75 cm de altura: tigelas menores empregadas como opérculo para cobrir os vasilhames funerários;
c) panelas semi-esféricas de bordas onduladas;
d) enterramentos primários em urna, fora das aldeias;
e) aldeias circulares com as ocas em torno de uma praça central, situadas em lugares elevados suaves;
f) subsistência não baseada no uso exclusivo da mandioca. A ausência de assadores e de vasilhames planos assim parece indicá-lo. De qualquer forma, porém, utilizaram a mandioca de forma diferente aos Tupinambá e apoiaram também sua subsistência no milho, no feijão e no amendoim; o rodízio nas plantações teria permitido assentamentos durante períodos mais longos;
g) lâminas alongadas de machado, picotadas e polidas e machados pesados de granito também polidos; machados simples de pequeno tamanho (8 a 10 cm de comprimento);
h) grandes rodelas de fuso de pedra e de cerâmica que indicam fiação de redes ou tecidos grossos; uma rodela de 8 cm de diâmetro é a maior coletada;
i) cachimbos tubulares ou na forma de funil;
j) fragmentos de rochas polidas, com depressões artificiais, utilizadas para esmagar grãos.
Quanto à cronologia da tradição Aratu no Nordeste, as datas obtidas situam-se entre 1.000 e 1.500 A. D. na Bahia, em aldeias anteriores às ocupações dos Tupiguarani que os devem ter expulsado do litoral antes da conquista portuguesa.
A difusão da Cultura Aratu no Nordeste, pode-se considerar, com segurança, em todo o litoral da Bahia, com penetração para o interior até a região do rio Grande e a depressão do São Francisco.
7.2 Os Ceramistas Tupiguarani
Os colonizadores denominaram "língua geral" ao idioma indígena mais falado ao longo da costa brasileira, que correspondia as distintas variedades do Tupi antigo. Essa língua, hoje perdida como idioma falado por grupos vivos, foi coligida nos dicionários e repertórios elaborados pelos missioneiros que tinham especial interesse em conhecer as línguas indígenas para proceder a catequização dos índios no seu próprio idioma. A grande extensão territorial que o Tupi alcançou é realmente impressionante e sua expansão coincide, em parte, com a difusão da cerâmica conhecida como da tradição Tupiguarani, facilmente identificável, especialmente na sub-tradição policrômica pintada, que se encontra, praticamente, de norte a sul do Brasil.
Em termos gerais, a cerâmica Tupiguarani caracteriza-se por estar confeccionada com técnica acordelada, ou seja, pela superposição de roletes ou cordões de barro, formando paredes grossas em relação ao tamanho do vasilhame. Cozimento a fogo redutor ou incompleto que produz uma banda escura ou acinzentada entre os lados interno e externo, mais claros, é facilmente observável nos casos de peças fragmentadas. Os aditivos ou antiplásticos consistem em caco moído, areia fina ou grossa e grânulos de argila. Podem estar também ausentes, por desnecessário, quando as impurezas naturais incorporadas à argila dão à mesma suficiente plasticidade. Não se observa na cerâmica Tupiguarani o uso de espongiários (cauixi) nem de cariapé como antiplástico, aditivos amplamente usados nas cerâmicas da Amazônia. As formas comuns oscilam muito de tamanho, registrando-se desde pequenos vasos de 10 cm de diâmetro a grandes alguidares de 70-80 cm, com alguns ultrapassando um metro de diâmetro. Há formas fechadas, porém predominam as abertas de paredes baixas, retas ou carenadas, com fundos planos ou suavemente curvos; as bocas são circulares, elípticas, retangulares ou quadrangulares.
Atendendo às características técnicas da decoração, fixaram-se três sub-tradições, designadas como pintada, corrugada e escovada. Trata-se, portanto, de caracterizadores relativos ao tratamento da superfície dos vasos sem maiores determinantes de formas nem dos tamanhos e usos. Com essas divisões estabeleceu-se um ponto de partida para a identificação dos assentamentos dos agricultores-ceramistas localizados ao longo do litoral brasileiro. Com o avanço das pesquisas, identificaram-se numerosos sítios cerâmicos no interior do Brasil, demonstrando-se que a tradição Tupiguarani teve ampla difusão no planalto e nos sertões, assinalando-se duas grandes correntes de norte a sul: uma litorânea e a outra através das grandes bacias formadoras do Amazonas e do Prata. As suas origens deveriam ser procuradas na bacia amazônica e a partir de uma grande tradição policrômica amazônica, que surgiu em torno de 1.500 BP. Aceitando-se essa origem, a cerâmica Tupiguarani, que encontramos no Nordeste chega-nos tão modificada pelo longo caminho percorrido, que sua primeira filiação se faz quase impossível.
A cerâmica que identificamos como da tradição Tupiguarani no litoral nordestino corresponde, principalmente, à sub-tradição pintada, também conhecida como policrômica, por apresentar desenhos nas cores branca, vermelha, preta e cinza. Os desenhos são complexos, "geométricos" ou abstratos, formando gregas e cenefas com fino acabamento, aplicado no interior, no exterior ou em ambos os lados do vasilhame. A cerâmica sem decoração é igual à pintada na feitura e nas formas, porém apenas não lhe foi aplicada decoração na superfície. Em certos sítios, uma cerâmica de elaboração mais grosseira acompanha os vasilhames pintados. Tratamento escovado de superfície também aparece, sendo o corrugado mais comum nas regiões interioranas. Quanto à cronologia, toda a tradição está compreendida entre 500 a 1.800 A. D.
Tem-se formulado hipóteses para se explicar as origens das subtradições ceramistas Tuoiguarani, baseadas sobretudo nas formas que acompanham as respectivas decorações da superfície dos vasos. Uma delas, formulada por J. Ferrari e P. I. Schmitz, parte do pressuposto de que adaptações às regiões mais frias com alimentação diversificada determinaria formas mais fechadas e profundas da cerâmica corrugada, para armazenar e cozinhar grãos. Nas áreas mais do Norte-Nordeste, a dieta se apoiaria no uso da mandioca amarga, representada pela cerâmica pintada, com formas mais planas e abertas. Essa hipótese coincide com a observação de Calderón, quando identificou a frequência da sub-tradição corrugada nas cabeceiras dos afluentes do São Francisco.
Valentin Calderón assinalou onze sítios da tradição Tupiguarani no SO da Bahia, que chamou de fase Coribe, onde predominavam urnas e vasos côncavos com as superfícies escovadas e corrugadas. Seriam, portanto, segundo a terminologia tradicional, aldeias das subtradições ceramistas escovada e corrugada, situadas no alto sertão da Bahia na depressão sanfranciscana. As aldeias "Coribe" estavam situadas sobre colinas e tabuleiros em lugares defensáveis. Estabeleceu, também, a fase Itapicuru, a partir de seis aldeias situadas na Chapada Diamantina, localizadas nas cabeceiras dos rios Itapicuru, Salitre e no vale do rio das Contas, com uma cerâmica de grandes vasilhames retangulares e tigelas ovais (30 a 55 cm de diâmetro) utilizadas para enterramentos secundários, com decoração ungulada ou pintada com motivos lineais nas cores preto, banco e vermelho e preto sobre branco.
Nos anos 1966-67, Calderón havia também pesquisado a região do rio Corrente, nos municípios de Coribe e Santa Maria da Vitória (BA), localizando ocupações da tradição Tupiguarani situadas em lugares altos, que considerou terem sido propositadamente escolhidos como lugares defensáveis. Pesquisas posteriores de Schmitz, no SO da Bahia, assinalaram, também, a presença de aldeias Tupiguarani em lugares elevados, situadas, em alguns casos, nos mesmos recintos das aldeias Aratu que podem ter conquistado.
Ao leste da cachoeira de Itaparica, desaparecem as concentrações de aldeias Aratu e Tupiguarani, detectadas no alto-médio São Francisco. As aldeias de agricultores-ceramistas concentram-se, principalmente, nas ilhas de formação quaternária, de solo fértil, que se apresentam como verdadeiros oásis no meio do semi-árido sanfranciscano. Nas prospecções arqueológicas nessa ilhas encontram-se numerosos indícios da ocupação de grupos agricultores pré-históricos, embora não possamos ainda filiá-los a dterminada tradição ceramista.
7.3 Outras culturas ceramistas no vale do São Francisco
Numerosos sítios de ceramistas pré-históricos no Nordeste estão precisando de estudos metodológicos para identificação dos grupos étnicos autores dos conjuntos cerâmicos aos quais se tem dado, genericamente, o nome de fases. Ao não se poder filiar a tradições como a Aratu e a Tupiguarani, um número considerável de coleções cerâmicas, produto de sondagens e de coletas de superfície, acabaram não representando grupos étnicos ou culturas relacionadas a outros elementos do registro arqueológico e dentro de um contexto ecológico.
Para a análise dessas coleções ou fases deve-se partir de um princípio contrário ao que norteou grande parte das pesquisas sobre os agricultores-ceramistas no Brasil, caracterizado por tendências difusionistas, nas quais toda fase cerâmica deve-se encaixar numa tradição de ampla dispersão geográfica, fixada ou por determinar. Partindo-se do princípio de que as coisas simples são reinventadas em vários lugares e se modificam rapidamente, podemos começar a estudar as manifestações cerâmicas pré-históricas de cada enclave e de cada área arqueológica, sem a preocupação da filiação imediata a grandes tradições. Levando-se em conta que a cerâmica é produto da mão humana e em consequência, sujeita a modificações subjetivas, além de adaptações rápidas das matérias-primas abundantes e variadas na natureza, como são as argilas e os desgraxantes.
Certos tratamentos plásticos das superfícies, como sejam o alisado, o escovado e o corrugado, não se podem considerar determinantes de uma tradição porque a experiência tem demonstrado que aparecem em todo o Brasil sobre cerâmicas de origens e tradição diferentes. Assim, como hipótese prévia, parto do princípio da existência de contatos de tipo artesanal e cultural através do escambo entre s populações ceramistas pré-históricas do Brasil, sem formular teorias em torno de grandes migrações, considerando apenas as similitudes como resultados de lentos e continuados contatos.
A presença de cerâmicas de tradições diferentes nas mesmas aldeias pode significar tanto a conquista e o deslocamento de um grupo pelo outro, como contatos, escambo e comércio, e também casamentos e raptos de mulheres, que são tradicionalmente as ceramistas. A densidade e a distribuição espacial dos registros cerâmicos serão a chave a indicar a resposta mais viável.
No médio-baixo vale do São Francisco, detectamos ocupações de ceramistas pré-históricos que indicam grupos étnicos diversos, não filiados aos horizontes tradicionais Aratu e Tupiguarani. O estudo dessas ocupações que, só recentemente foram iniciadas por Suely Luna e Ana Nascimento, do Núcleo de Estudos Arqueológicos da Universidade Federal de Pernambuco, poderão fornecer informações sobre os agricultores-ceramistas, habitantes da região desde o terceiro milênio BP, muito antes, portanto, da chegada dos grupos Aratu e Tupiguarani no vale sanfranciscano.
Calderón chamou Cerâmica Cabrobó a uma cerâmica de formas simples, globulares e ovóides com superfícies escovadas ou alisadas e também acanaladas, espatuladas e corrugadas, com bordas diretas. O aditivo ou antiplástico é de areia fina e grossa. Está representada por urnas funerárias usadas em enterramentos secundários e tigelas e panelas também globulares. A decoração é sempre plástica, com total ausência de pintura. Trata-se de cerâmica coletada no vale do São Francisco em cemitérios indígenas situados no município de Cabrobó (PE) e na ilha da Assunção que pertence a esse município. Esse tipo de cerâmica aparece, segundo as pesquisas de Calderón, desde Casa Nova (BA) até Belém do São Francisco (PE). São, principalmente, urnas funerárias isoladas ou em grupos de dois com enterramentos secundários de incineração.
Encontrei esse mesmo tipo de urnas funerárias rio abaixo, nas ilhas de Zorobabel, Itacuruba e da Viúva, formando parte de rituais de incineração. Pratos abertos de fundo curvo com engobo vermelho estavam associados a essa cerâmica e devem ter servido como tampa das urnas ou para as oferendas fúnebres. Essa cerâmica "Cabrobó" corresponde às aldeias de agricultores estabelecidos nas férteis ilhas do médio São Francisco.
Não temos condições de saber exatamente qual a estrutura dessas aldeias nas ilhas, porque intensamente cultivadas com plantações de milho, arroz e hortigranjeiros, tiveram destruídas suas principais evidências, mas era possível ainda se detectar antes da inundação pelo lago de Itaparica, grande quantidade de fragmentos de cerâmica espalhados pelos campos cultivados. A aldeia de Zorobabel esteve situada numa plataforma elevada no centro da ilha, e as urnas funerárias situavam-se na borda da aldeia, algumas enterradas em covas de cinzas. À jusante da cachoeira de Itaparica desaparece a cultura Cabrobó, ao menos pelos conhecimentos que até agora temos.
Outro conjunto expressivo de ocupações ceramistas no vale do São Francisco está localizado na área de Xingó, entre Sergipe e Alagoas. No município de Canindé de São Francisco (SE), idfentificaram-se vários estabelecimentos com cerâmica cujas maiores coleções correspodem ao cemitério do Justino. A ocupação desse importante sítio correspondia a grupos ceramistas que, pela cronologia obtida nos níveis datados, situa o assentamento dessas populações no médio-baixo São Francisco desde a metade do segundo milênio a. C. A partir dessas datas, eminentemente antigas para grupos ceramistas, vemos que as técnicas de tratamento plástico das superfícies como alisado, escovado, inciso, corrugado e ungulado podem ser técnicas utilizadas com anterioridade à expansão dos Tupiguarani e Aratu pelo Nordeste. Concretamente, no Sítio do Justino, a cerâmica de superfície apresentava tratamento alisado mas, segundo se atingia níveis mais profundos da escavação, apresentava-se com técnica melhor elaborada e decoração plástica mais cuidada, incisa, ungulada, escovada e corrugada. A decoração pintada é mais recente e aparece em pequenas quantidades com restos de pintura vermelha e branca; a técnica de manufatura é acordelada ou roletada e os anti-plásticos utilizados, areia fina e grossa, areia com mica e cacos moídos de cerâmica em quantidades reduzidas, além de peças sem nenhuma classe de aditivo. Predominam as vasilhas de pequeno tamanho, com diâmetros entre 5 e 20 cm e altura de 5 a 10 cm, com formas globulares, bases curvas ou planas e borda direta. Vasilhas coletadas inteiras, fazendo parte do mobiliário fúnebre, apresentam diâmetros entre 30 e 40 cm e alturas entre 20 e 30 cm. Como o cemitério do Justino foi ocupado, pelo menos durante 4000 anos por grupos ceramistas, o estudo minucioso das cerâmicas coletadas poderá dar, no futuro, uma visão mais completa da evolução das cerâmicas pré-históricas no vale do São Francisco. No estado atual do conhecimento, somente podemos afirmar a existência, nesse trecho do São Francisco, de populações ceramistas já estabelecidas desde o segundo milênio a. C., com ritual funerário de inumação e ausência de urnas funerárias de tamanho grande para guardar os corpos, seja de enterramentos primários ou secundários.
Pode-se deduzir, portanto, que no vale médio do São Francisco estabeleceram-se grupos étnicos ceramistas, a partir do segundo milênio a. C., que praticavam rituais fúnebres da inumação (cemitério do Justino) seguido da incineração (fase de ocupação da Gruta do Padre como cemitério), utilizando-se de vasilhames de pequeno e médio porte como enxoval fúnebre. Novos ocupantes, chegados muito depois, em datas ainda indeterminadas da Era Cristã, introduziram os enterramentos em grandes urnas funerárias, prática que vai se generalizar até a época colonial.
8. AS MISSÕES RELIGIOSAS NO VALE DO SÃO
FRANCISCO
Nas ilhas e nos brejos de terras mais férteis, estabeleceram-se as primeiras missões católicas a partir do século XVII, primeiro pelos jesuítas e mais tarde pelos capuchinhos franceses e italianos, aldeando os indígenas nas primeiras comunidades cristãs do vale. A história dessas missões e de suas lutas contra as poderosas casas da Torre e da Ponte são, possivelmente, os capítulos mais dramáticos da história do vale do rio São Francisco.
O estabelecimento das missões católicas no São Francisco está intimamente ligado à história da Casa da Torre desde a chegada à Bahia, em 1549, do primeiro Garcia d’Ávila. Antes do início da colonização, no sertão do São Francisco, já haviam começado os primeiros confrontos entre jesuítas e criadores de gado que se adentravam no vale. Os Garcia d’Ávila, poderosos senhores da Casa da Torre, detinham a jurisdição sanfranciscana até o Piauí.
Tanto a obra missioneira entre os indígenas ou sua simples expulsão para facilitar instalação das fazendas de gado no interior dos sertões, significaram a destruição das culturas indígenas, quando não seu aniquilamento físico. Mesmo levando-se em conta que os missioneiros, cheios de boas intenções, tentavam proteger os índios da cobiça e da crueldade dos Garcia d´Ávila, o seu aldeamento compulsório em missões, sem respeito às variedades das nações indígenas, significou o início do fim de grupos humanos autóctones, detentores de tradições culturais milenares. O paulatino acuamento das nações indígenas nas áreas mais afastadas do vale, está relacionado com o avanço da pecuária no sertão, uma vez que por sucessivos privilégios reais, as áreas agrícolas indígenas, eram consideradas terras de pastagens.
Do número e nome das missões e dos respectivos padroeiros, assim como das tribos indígenas que aldearam, temos informações através da documentação da Junta das Missões e na relação das aldeias na Informação Geral da Capitania de Pernambuco, de 1749, embora das suas estruturas arquitetônicas tenhamos poucas indicações na documentação, pois nem sempre os dados existentes correspondem à realidade. O alvará de 23 de novembro de 1700, estabelecia para cada missão, a demarcação de uma "legoa em quadra" e terras para "cem casaes". Existem diversos documentos mostrando que, na medida do possível, cumpriam-se os padrões estabelecidos para a instalação de um aldeamento religioso, que constava, também, de uma praça, igreja, cruzeiro, cemitério, escola, hospital e casa dos padres.
As missões religiosas do vale do São Francisco faziam parte da Província de Santo Antônio do Brasil e, entre 1679 e 1863, constam, na documentação dos arquivos franciscanos, as seguintes missões:
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Missão |
Padroeiro |
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Itapicuru de Cima |
Santo Antônio e N. S. da Saúde |
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Massacara |
Sma. Trindade |
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Bom Jesus de Jacobina |
Bom Jesus da Glória |
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Saí |
N. Sra. das Neves |
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Juazeiro* |
N. Sra. das Grotas |
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Rodelas* |
São João Batista |
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Pambú* |
N. Sra. da Conceição |
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Massarandupio |
Santo Antônio |
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Jeremoabo |
N. Sra. das Grotas |
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Curral dos Bois |
S. Francisco e S. Antônio |
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Aracapá* |
S. Francisco |
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Camumu |
N. Sra. do Desterro |
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Salitre |
S. Gonzalo |
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Piagui |
Santa Cruz |
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Catu |
Santo Antônio |
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Aricobé |
N. Sra. da Conceição |
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Alagoas |
N. Sra. da Vitória |
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Palmar |
Santo Amaro |
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Una ou Iguna |
São Miguel |
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Coripos* |
N. Sra. do Pilar |
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Zorobabel* |
N. Sra. do Ó |
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Unhunu* ou Inhamuns |
N. Sra. da Piedade |
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Pontal* |
N. Sra. dos Remédios |
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Pajeu* |
Santo Antônio |
|
Cariris |
N. Sra. do Pilar |
(*) Missões arqueologicamente localizadas, todas situadas nas ilhas do São Francisco.
Esses estabelecimentos missioneiros correspondem às antigas aldeias indígenas relacionados nos Anais Pernambucanos de Pereira da Costa. Pode-se deduzir que as aldeias indígenas de agricultores, precederam à implantação das missões nos mesmos lugares, ou seja, a construção de uma missão urbanisticamente planejada "com casas para cem casaes".
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