PROJETO FINANCIADO PELA CHESF
*Consultor do PAX. Relatório de visita à área de Xingó, em novembro de
1997.
Aziz Nacib Ab' Sáber*
O HOMEM DOS TERRAÇOS DE XINGÓ
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
REITOR: Prof. Dr. José Fernandes de Lima
VICE-REITOR: Prof. Dr. Josué Modesto dos Passos Subrinho
PROJETO ARQUEOLÓGICO DE XINGÓ - PAX
COORDENADOR GERAL:
Prof. Dr. José Alexandre F. Diniz
COORDENADORES TÉCNICOS:
Arqueóloga Maria Cleonice de Souza Vergne
Arqueóloga Suely Luna
Os CADERNOS DE ARQUEOLOGIA,
publicação seriada do Projeto Arqueológico de Xingó, que têm por objetivo a
divulgação de resultados de pesquisas produzidas na área, contam com duas
séries: 1) Documentos, que publicam versões simplificadas de relatórios
oficiais do Projeto, e 2) Textos, que publicam trabalhos de pesquisas
independentes. de autoria de membros e
assessores do Projeto ou de outros pesquisadores.
Uma excursão entre Aracaju e
Xingó permite observações ao longo de um transecto que abrange todo o corpo
territorial do Estado de Sergipe, tendo como ponto de partida a planície
costeira, com seus sucessivos cordões de areias e sua complexa drenagem,
cruzando-se os terrenos cretácicos dispostos em altas colinas convexizadas,
para atingir a região do dono de Itabaiana, esvaziando por longos processos
denudacionais. Depois percorrem-se amplos espaços de sertões baixos, até
Canindé de São Francisco. Atinge-se bruscamente a área de Xingó, que descai
rapidamente para os antigos canalões rochosos da porção terminal do canyon de
Paulo Afonso/Xingó. Trata-se de uma excursão que possibilita atravessar todos
os ecossistemas existentes no interior de Sergipe, a saber: vegetação das
restingas, matas tropicais dos tabuleiros ondulados, colinas e morros baixos
calcários (antiga zona de matas); serrinhas sincopadas do antigo dono
pré-cambriano de Itabaiana (agreste), e diferentes tratos de sertões baixos,
dispostos em patamares rebaixados, entre minúsculas serrinhas.
Talvez seja oportuna uma rápida revisão geomorfológica da
gêneses do chamado "cotovelo" do rio São Francisco, na região de
Petrolina/Juazeiro e Paulo Afonso/Xingó. O número de vezes que os cultores das
geociências no Brasil São solicitados a informar sobre a origem do curso atual
do São Francisco nos anima a uma resposta mais incisiva e sistemática sobre
essa velha questão, tão deturpada.
É fora de dúvida que o rio São Francisco, em seu trecho
alto e médio, de direção sul-norte, foi um curso d'água que se superpôs à
cobertura cretacia do interior-mineiro e baiano, elaborando uma depressão
periférica alongada, apertada entre as cristas e maciços antigos do
Espinhaço e chapada Diamantina e os
chapadões cretácicos do sistema Urucúia. Anteriormente ao seguimento dessa
longa faixa de estruturas sedimentares cretácicas, o São Francisco mais antigo
era um mero participantes da sedimentação lacustre e flúvio lacustre que criou
a grande bacia cretácica do interior de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco,
___________________________________
Este trabalho não poderia ser
feito, não fosse a colaboração e os debates que fizemos com colegas José
Alexandre Diniz, Cleonice Vergne, Suely Luna e Ana Lúcia do Nascimento,
geográficos e arqueólogos dirigentes do Projeto Arqueológico do Xingó
(Universidade Federal de Sergipe, CHESF e Petrobrás).
Ceará e Maranhão. Nessa
época em que a plataforma Brasileira esteve em nível tectônico muito baixo, o
São Francisco e outros rios regionais, contribuiam para estender e assorear as
coberturas cretácica, ao longo da qual o rio depois se encaixaria
alongadamente, por ocasião do primeiro ressalto da epirogênese, que deu inicio
ao surgimento das aludidas formações sedimentares. Dessa forma, o rio abriu uma
longa depressão periférica entre a dorsal do Espinhaço e a porção ocidental da
bacia sedimentar soerguida (Moraes Rego 1936). No processo de encaixamento,
atingiu-se estruturas metamórficas da série Bambui, expondo tratos de formações
calcareas e ardosianas (Serra do Ramalho, entre outros).
Toda a complicação que abrigou o São Francisco
pós-cretácico a encurvar-se para leste, a partir do Sobradinho e Morada Nova,
deveu-se a irregularidades no levantamento das estruturas sedimentares dos fins
do Mesozóicos, distribuídas por espaços hoje
situados no interior de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e
Ceará. É quase certo que, por ocasião
do exagerado levantamento que se fez atuar no centro da bacia do Araripe,
contribuindo para criar a grande mesa dos sertões de três Estados brasileiros,
o curso do rio foi abrigado a desviar-se para leste, através de notável
encurvamento, projetando-se para a faixa de fronteira dos atuais Estados de
Alagoas e Sergipe. E, daí por diante, na medida em que a epirogênese fazia suas
sucessivas "saltações" para o alto, o rio São Francisco encaixava-se,
mais e mais, até ao ponto de atingir o embasamento geológico regional, composto
de gnaisses graníticos e migmatitos.
Temos boas razões para dizer que a canyon de Paulo
Afonso-Xingó-Piranhas teve uma longa duração durante o quaternário, envolvendo
aproximadamente 3 milhões de anos, em trabalhos de erosão de talvegue. Existem
indicações que o encaixamento processou-se sabor de duas ou três fases
intermitentes de escavação. Numa primeira fase, houve um encaixamento discreto,
com a formação de um vale longo embutido em umas poucas dezenas de metros
abaixo do nível geral da superfície sertaneja moderna regional. A partir desse
primeiro episódio, que remonta aos tempos iniciais do Pleistoceno. O curso do
São Francisco na região ficou estabelecido em seu eixo geral, consolidando o
"cotovelo" do rio na região. Um novo soerguimento do conjunto fez com
que um novo patamar intermediário fosse estabelecido, antes que a garganta do
atual canyon se pronunciasse. Esse segundo nível intermediário de erosão
culminou com um vale embutido, no dorso do anterior, porém, agora, com trechos
alternados de vale ora relativamente aberto, ora bastante esteito. Foi a partir desse batente de vale embutido, disposto
em forma de "boudinage", que o São Francisco iniciou seu encaixamento
definitivo, gerando os paredões verticais que hoje se observam. Para que tudo
isso acontecesse, foi indispensável a internação de uma epirogênese
intermitente, um tanto flexurada em direção à costa, e suficientemente ampla
para criar o baixo platô cristalino dos vastíssimos sertões sêcos da Bahia,
Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Através de todos esses acontecimento
páleo-hidrográficos, o velho rio fixou seu curso para leste. E , na qualidade
de correnteza alóctona, cruza os sertões sêcos, e, atingindo a faixa costeira
de Sergipe e Alagoas, onde perpassa por agrestes e antigas grandes matas, vem a
formar um dos raros "deltas arqueados" do litoral brasileiro.
Os conhecimentos paleoclimáticos e paloecológicos sobre
os primeiros tempos do Holoceno, referente à maior parte do território
brasileiro, são extremamente escassos. Daí porque, quando solicitadas a
geomorfologistas e palinólogos, as respostas são quase sempre decepcionantes e
não satisfatórias. Já, no que respeita a episódios sincopados de mudanças
climáticas de curta duração, referente à segunda metade do Recente, os informes
são bem mais ricos e significativos, sobretudo no que se refere a diferentes
áreas da Amazônia. Os únicos estudos confiáveis sobre os primeiros tempos do
Holoceno, feitos no Brasil Centro-Sul, foram os do Padre Schomodt e seus
discípulos, em lapas do sudoeste de Goiás. Nessa importante área de sítios
pre-históricos do Brasil Central, o autor identificou uma série de alternâncias
entre climas mais chuvosos e períodos menos sujeitos a chuvas, no decorrer dos
primeiros milênios do Recente, por meio da interpretação de variações
estratográficas dos jazidos encontrados no interior de lapas.
No entanto, quando se trata de outras áreas ou mini-áreas
arqueológicas do país, ocorre um enorme silêncio nas informações solicitadas.
Sendo que, em geral, ocorre uma nítida divisão nas matrizes de informações. Os
geomorfologistas somente têm força para ofertar informes sobre condições
paleoclimáticas e ecológicas do Pleistoceno Superior, máxime sobre Würm IV -
Wisconsin Superior. Por seu lado, os palinologistas têm maior capacidade de
ofertar dados sobre o lapso de tempo decorrido entre o otimun climático e os últimos milênios antes do presente (AP). E,
por fim, somente os próprios, acabam por fornecer informes sobre os tempos
pré-cerâmicos e a primeira metade do Holoceno.
No caso particular do distrito pré-histórico de jazigos
descobertos por jovens arqueólogos nordestinos e franco processo de análise
arqueológica - na faixa de canyon do
rio São Francisco, entre Paulo Afonso de Xingó, ocorre uma situação inusitada.
Na faixa basal das íngremes paredes rochosas do canyon, partilhadas por facheiros - em chão excessivamente dominado
por afloramento de rochas granitizadas e magmatitos, ocorrem terraços arenosos,
estreitos e sucessivos, sobrelevados d 12 a 15m acima do nível médio mais
elevado do rio, hoje identificado pela base remanescente da mata da c´raiba. Há
que se referir a êsse limite natural correspondente ao que designamos nível
máximo-médio, demarcado pela tradicional floresta ciliar do domínio das
caatingas, documentada pela fileira iniludível das árvores sempre-verde das
caraibas floridas. Há que referi-lo, porque hoje o rio, após as notáveis
barramentos efetuados à montante (Três Maria/Sobradinho e Itaparica/Xingó),
teve seu nível médio substancialmente rebaixado, de até 3 a 5 metros, fazendo
com que a base da antiga floresta beiradeira, rala e estreita, ficasse
suspensa. Por sua vez, os terraços, que foram gerados a mais de uma dezena de
metros acima da linha hoje definida
pela mata c´raiba, tornaram-se mais visíveis na paisagem dos sopés, das altas e
íngreme vertentes rochosas do canyon.
Os terraços aluviais, predominantemente arenosos, que
incluem intercalações de camadas de lamas compactadas, síltico-argilosas, são
descontínuos e sincopados, postando-se de 12 a15 metros acimado que vimos
designando por nível máximo-médio do rio. Nessa posição de
"pé-de-serra", ou sopés de altas vertentes rochosas, os terraços
podem ocorrer em dois tipos de jazimento: 1 tampão arenoso na barra de um
pequeno afluente com a margem do São Francisco; ou, 2, em alinhamento basal, de
algumas centenas de metros, ao longo de estirões dos sopés de paredões rochosos
mais contínuos (caso dos terraços situados no fundo do canyon, à frente do sítio da cidade de Piranhas, na margem direita
do rio).
Quando foram iniciados os trabalhos para a construção da
barragem e futuro reservatório de Xingó, os jovens arqueólogos brasileiros,
formados na escola de Niéde Guidon e Gabriela Martin, insistiram em uma
campanha de pesquisas arqueológicas na faixa do canyon do rio São Francisco, entre Paulo Afonso e Xingó. Não foi
fácil vencer a resistência dos responsáveis pela construção da barragem. Mas havia
uma atmosfera cultural que campeava por todo Brasil, exigindo estudos de
impacto ambientais providências para
salvamento de fauna durante o fechamento de barragens e rastreamnto
arqueológico dos sítios de reservatórios antes de sua inundação: tudo favoreceu à aprovação de uma tarefa sistemática de pesquisas pré-históricas, as
quais depois se projetaram e se desdobram na instalação de um laboratório para
pesquisas arqueológicas, com resguardo de artefatos líticos e cerâmicos,
ossadas himanas e testemunhas da fauna pene-contemporânea do distrito pré-histórico regional. Tendo,
por fim, culminou na excelente idéia da instalação de um Ecomuseu e o
desdobramento do material documentário em acervos universitários (Sergipe,
Alagoas).
Em aproximadamente 10 anos de pesquisa e escavações,
foram trabalhados, diversos sítios no dorso dos terraços aluviais de fundo de canyon, recuperando ossadas de
sepultamento, artefatos de um período lítico de 8,900 a menos de 2.000 AP., e
grande quantidade de fragmentos de cerâmica, elaboradas em um longo período de tempo, segundo uma
tipologia cultural que perdurou por alguns milhares de anos. Note-se que,
segundo nos informaram os arqueólogos integrados na pesquisa, a última fase de
artefatos cerâmicos (fase tupi?), é bem inferior aos artefatos mais antigos,
tanto no fabrico quanto na decoração. Somando as assadas encontradas até
outubro de 1997 - pertencentes a diferente épocas de sepultamento no dorso dos
terraços - atinge-se o alentado número de 191 casos. Exumados de diferentes
níveis dos jazigos. Dada a importância do material total já coletado, e o
potencial de artefatos e documentos pré-históricos presumivelmente existente
nos terraços do fundo do canyon, já
listado para futuras escavações e pesquisas, pode-se afiançar que existem
trabalhos para anos seguidos d investigações arqueológicas.
Enquanto Xingó e as usinas vizinhas fornecem energia para
distantes regiões do Nordeste seco, do Litoral aos Agrestes e Sertões, os
velhos documentos da ocupação do espaço regional pelos nossos ancestrais
pré-históricos fornecem motivação e estímulos para o desenvolvimento da
pesquisa científica interdisciplinar em nossas jovens universidades. O que está
em jogo, nessa direção, é a recuperação sistemática da trajetória dos grupos humanos
que, procedentes de longínquas paragens e raízes asiáticas, movimentaram-se
pelo vasto território inter e subtropical brasileiro, assentando-se aqui e
ali., em busca da dádiva da natureza para sobreviver.
Por meio desses raciocínios pode-se afiançar que os
primeiros grupos humanos tardios - posteriores ao fim do Pleistoceno -
sedentarizaram-se nos terraços aluviais areno - síltico - argilosos, da área de
Paulo Afonso/Xingó Piranhas, baseados em um suporte arqueológico múltiplo. Um
largo rio perene: águas límpidas, fluxos movimentados de corredeiras, em uma
situação ideal para peixe lêntico. Espaços de vivência não inteiramente
atraente para grupos competidores ou inimigos. Tudo, enfim, convergindo para
criar condições satisfatórias para grupos humanos que ali chegassem, em se
apoiando no suporte arqueológico dos estreitos e inclinados terraços, situados
na base d íngremes paredes rochosas. Pelo lado das vertentes inclinadas,
coalhadas de rochedos e demasiadamente rugosas, ninguém podia abordar os sítios
habitados. Uma abordagem pelos canais de escoamento acidentados de alguns
pequenos riachos intermitentes afluentes era mais viável, posto que
dificilmente efetuada. Para pequenas embarcações - pirogas ou canoas - existiam
condições favoráveis, incluindo-se alguns tipos de árvores beiradeiras de
tronco suficientes para a construção de
equipamento rústicos de transporte fluvial. A intercomunicação por água entre
grupos vizinhos, de procedência étnica e cultura, e de comportamento pacífico,
parece ser uma verdade, desde tempos imemoriais. Na época dos produtos
exclusivamente líticos, rochas e
fragmentos de rochas, é o que não faltavam. Enquanto a grande diversidade de
materiais rochosos propiciava uma utilização seletiva de fragmento de
diferentes graus de dureza e tamanhos, para os mais diferentes tipos de
artefatos úteis (machados de pedra, raspadores, maceradores, panelas e blocos
de suporte para fogueiras).
A questão do peixe abundante, existente nas águas
movimentadas do rio São Francisco na região, pode suscitar alguma controvérsia.
Tudo leva a crer que se tratava de um setor de rio largo muito piscoso,
incluindo uma oferta permanente de alimento para todos os pequenos grupos
beiradeiros, ligeiramente separados entre si pela descontinuidade entre os
tratos de terraços fluviais existentes no fundo do canyon. A despeito de não se encontrar uma grande quantidade de
restos de cozinha, testemunhos do uso freqüente de peixes, ou de ossos e
cartilagens de peixes, pode-se presumir que, desde os mais remotos tempos do
período lítico ou cerâmico, a alimentação dos pequenos grupos viventes nos
terraços sincopados era fundamentalmente baseada no peixe.
Para especialistas que já estudaram sambaquis, parece
muito pouco o que se encontra nos jazigos de Xingó, em matéria de restos de
ichitiofauna. Convém lembrar sempre, entretanto, que o homem do sambaqui vivia
no entorno de lagunas ou na beira de gambôas, prenhes de peixes e "frutos
do mar", tendo se adaptado a uma cultura de descarte local para os restos
de cozinha. Na beira de um rio de fluxo rápido e grande volume d'água, não
surgiu nada lembrasse a exagerada poluição local estabelecida pelos homens do
sambaquis.
Por todas essa razões, damos grande importância à
atividade da piracema no distrito pré-histórico e arqueológico de Xingó a Paulo
Afonso. Talvez, ela tenha sido mesmo o motivo número um para a sedentarização
dos gupos indígenas que habitaram a região desde 8.900 anos até ao advento de
aguerridos tupi-guaranis, que possivelmente desalojaram os seus antecessores.
Não temos grande experiência de pesquisas em terraços
fluviais arenosos descontínuos, gerados na base de paredes verticais de canyons estreitos e bem talhados, tal
como é o caso de execeção existente na margem da garganta do São Francisco, no
setor de rio situado entre Paulo Afonso - Xingó- Piranhas. Trata-se d terraços
gerados em condições de margem de estiagem, em rios que sofreram fortes
oscilações em passado relativamente recente. Nessas páleopraias de estiagem
sucessivamente crescidas por aluviões síltico-arenosos e colúvios, dispostas a
12 ou 14 metros de altura, foram encontrados, por escavações arqueológicas
bastante controladas, documentos pré-históricos datados de até 8.900 anos AP. (Holoceno). Antes das escavações ,
observados de um ponto de vista exclusivamente sobre- elevados pareciam ser
mais antigos do que as pesquisas arqueológicas acabaram por indicar.
Daí a questão
básica que se propõe: quando os grupos humanos mais antigos - de 9.000 a
4.000 AP. - ali se estabeleceram , já existiria o terraço ou um embrião de
terraço? ou, pelo contrário, ocorria apenas uma praia estreita, inclinada e
ascendente, mais tarde acrescida de sucessivas camadas de transbordes
eventuais, sobre rampas aluviais intermitentes habitadas? Este é o dilema que
nos é proposto pelas observações pioneiras inseridas no "Relatório de
Assesssoria Técnica do Projeto de Salvamento Arqueológico de Xingó - Estudos
Sedimentológicos (Janeiro de 1995)", realizado em condições absolutamente
pioneiras, por José Maria Landim Dominguez e Arno Brichta (UFBa).
Por diversas razões, tudo leva a crer que os embriões dos
terraços na condição de praias de estiagem já existiam quando as mais antigas
vagas de homens pré-históricos ali chegaram. Fato válido, sobretudo, para
explicar a gênese do terraço do "Justino", que se dispunha em nível
inferior ao do terraço contíguo, designado terraço "ouro Fino". Tais
informes, oriundos da equipe que dirige o projeto "Xingó", tem um
interesse fundamental, caso venham a ser confirmadas por pesquisas ulteriores.
No caso, o terraço ligeiramente interiorizado poderia remontar ao Pleistoceno,
enquanto o terraço mais baixo teria se formado no decorrer do Holoceno,
envolvendo uma acoplagem entre processos naturais hidrodinâmicos e processos
interferentes de utilização antrópica.
A despeito das dificuldades para o entendimento e a
datação dos terraços aluviais suspensos da margem do canyon do Xingó, é bem mais fácil entender as razões que levaram os
homens a ali residir e desenvolver atividades diferenciadas de sobrevivência.
Temos a certeza de que os primeiros grupos humanos que ali aportaram tiveram
uma atração compeensível pelas potencialidades do rio, em matéria de peixes das
mais varadas espécies. Os sítios eram estratégicos para o uso de um rio perene
- portanto a excção - na conjuntura de uma vasta área dominada por caatingas,
desde há muito mais do que 9.000 anos. Não existem documentos detríticos nas
paredes e altas vertentes do canyon
que nos permitem inferir flutuações climáticas radicais nesse espaço. Mas, é
certo que houve flutuações do nível do rio, devido a um jogo de influências de
fatores alóctonos, tais como mudanças climáticas sensíveis ocorridas nos
setores de rio-acima, no decorrer do Quaternário, e mecanismos eustáticos do
nível do mar, ocorridos nos fins do Quaternário Antigo e, minimizadamente (re)
correntes no Holoceno. Entre 23.000 e 12.700 anos AP., o nível do mar desceu
para menos 100 metros, época em que a região de Xingó, estimulada pela erosão
regressiva, tornou-se local de corredeiras e de encaixamento por entre soleiras
de rochas duras, atualmente expostas. Entre 6.500 e 6.000 anos atrás,
aproximadamente, o mar em processo de retorno esteve a 2,90 - 3,00 metros acima
do seu nível médio, afogando estuários e contribuindo para altear o nível dos
rios, para montante, até Xingó. Esse processo foi concomitante com um notável
aumento de volume d'água devido à (re)
tropicalização ocorrida nos trechos médios e altos da bacia do São Francisco. As
paredes do canyon, recobertas de
caatingas e facheiros, já eram altas e rochosas, escavadas que foram no
decorrer dos últimos dois milhões de anos. Em qualquer hipótese, não é possível
comparar as notáveis flutuações climáticas ocorridas em Xique-Xique ou em
Camaçari, ou no interior do domo esvaziado de Itabaiana, com a quase ausência
de mudanças ocorridas no interior do canyon
de Paulo Afonso -Xingó - Piranhas, nos fins do Pleistoceno e no próprio
decorrer do Holoceno. É de se registrar, ainda, que os extensos pediplanos dos
sertões de Sergipe e Alagoas foram mais sensíveis às variações climáticas dos
fins do Quaternário do que o fundo do canyon.
Os grupos humanos que se estabeleceram nos terraços
arenosos de Xingó-Piranhas tinham ao seu favor fluxos d'água perenes que
atendiam a todas as suas necessidades: - água de beber, água para cozinhar
alimentos, água para preparar o peixe e água para se banhar. Mas, em face da
prolongada semi-aridez que atravessou o Pleistoceno e chegou ao Holoceno,
pode-se entender porque os grupos pré-históricos, habitantes dos terraços,
tinham à sua disposição fragmento de rocha, de todos os tipos tamanho e
resistência. Fragmentos das paredes rochosas; seixos angulosos trabalhados pelo
rio, desde Paulo Afonso até muito além de Xingó, rio abaixo. As culturas
líticas teriam se beneficiado muito com essa conjuntura de ofertas. Depois de
4.000 AP., quando se inventa a cerâmica na região pelos sucessores dos
pioneiros, aconteceu um acréscimo de oferendas, devido à presença de lamas
síltico-argilosas. Disso resultou o fabrico paralelo de artefatos líticos e
utensílios cerâmicos caprichados. Pelo menos, por 2 ou 3 milhares de anos, até
à chegada dos agressivos tupis.
As modificações sofridas pelo rio São Francisco, à
jusante do barramento feito em Xingó, são de variadas ordens. Em função das
sucessivas barragens existentes desde Sobradinho até Xingó, o rio à jusante
dessa última sofreu um rebaixamento do seu nível médio, calculado entre 2 a 3
metros, no mínimo. Devido a isso, a antiga linha de c´raibeiras, que existia na
beirada do rio, ficou suspensa e interiorizada, servindo admiravelmente como
referência para se medir a amplitude local do rebaixamento. Desde a linha de
beirada antiga do rio até o novo alinhamento irregular, predominantemente
rochoso, medeiam hoje 150 a 200 metros do fundo re-exposto do rio. Ocorrem aí,
também, seixos fluviais aprisionados nas irregularidades do antigo assoalho
re-exposto da margem do rio (Sítio Jerimum, à Jusante de Piranhas, margem
direita do São Francisco). Tal situação nos permite inferir que a massa d'água
do curso d'água nesse lugar deveria
oscilar entre 2 a 4 metros de profundidade, fato que facilita
sobremaneira uma navegação segura para as canoas dos primitivos habitantes dos
terraços - praias fluviais descontínuas, do fundo do canyon.
Outras mudanças flagrante ocorrente no rio, à jusante de
Xingó, diz respeito à dinâmica da sedimentação. Atualmente, o trecho do São
Francisco que se estende da base da barragem de Xingó até além de Piranhas é
dotado de águas extremamente límpidas, porém muito menos piscosas do que no
passado, sobretudo no que respeita o passado pré-histórico, quando o alongado
São Francisco transporta sedimentos sílico e argilosos provenientes de longas
distâncias situadas à montante. O sistema de barragens - implantado na região
na segunda metade desse século - ocasionou retenção forçada de sedimentos
outrora transportados pelo rio, tais como siltes, areias, argilas e seixos.
Todo o conjunto de detritos minerais ou micelas orgânicas, importante para
alimentação da ichtiofauna, ficou retido atrás das barragens (Itaparica, Paulo
Afonso, Xingó). Enquanto isso, as águas liberadas para jusante de Xingó
tornaram-se limpas de sedimentos e de alimentos para os peixes. Disso pode-se
deduzir que, a época de vivência dos grupos pré-históricos, o rio possuía uma
rica e diversificada fauna de água doce. Mais do que isso, porém, atualmente o
fluxo das águas corre lento, por entre barras ou soleiras de rochas duras,
transversais ao eixo geral do rio. Algumas dessas soleiras apresentam sinais de
polimento hidrodinâmico, fato que pressupõe corredeiras importantes no passado.
E, por extensão, indica que esse setor do São Francisco devia se constituir em
importante faixa de piracema. Donde se conclui que, em longos espaços d tempo,
o rio era piscoso e dadivoso para a sobrevivência dos grupos humanos
pré-históricos ali viventes.
É quase certo que durante o chamado otimum climático, quando o nível
médio esteve a 3 metros aproximadamente a mais do que hoje, o Baixo São
Francisco sofreu represamento e elevação de nível até a região de Paulo
Afonso/Xingó. Pela datação da ocupação dos terrenos arenosos descontínuos do
fundo do canyon, (8.900 anos AP.)
pode-se inferir que os grupos paleo-índios das margens devem ter sido afetado
pela ascensão das águas no momento em que os mares de toda a face da terra
estiveram alguns metros acima do seu nível médio atual. Um episódio referível
ao intervalo do Holceno, situado entre 6,500 e 5,500 anos AP. (Antes do
Presente). Posteriormente, o nível do Baixo São Francisco rebaixou-se
condicionado pelo nível de base estabelecido pelo mar. E, assim, os homens
pré-históricos ali localizados antes do otimum
climático, continuaram suas
atividades nos terraços arenosos, sujeitando-se apenas à variabilidade
hidroclimática habitual, que afetava a região e as oscilações do rio. Existem
razões para se acreditar que a pequena faixa das matas ripárias, constituída
predominantemente pela presença de c´raiba, tenha se implantado na região após
os efeitos do otimum climático,
durante a decida das águas para o nível médio encontrado pelos colonizadores e
registrados nas expedições científica
que passaram pela região.
O problema das possíveis relações entre os grupos
sedentários, dos terraços do fundo do canyon,
com os coletores caçadores existentes nas terras mais altas dos sertões
vizinhos ainda permanece em aberto para futuras pesquisas. Existem
inscrições rupestres em tetos de
abrigos sobre rocha, em lajedos, nas colinas sertanejas do baixo platô
regional. Trata-se de lajedos esparsos com matacões alongadas sobrepostos, em
processo de derruição e arredondamento, onde ocorrem lapas estreitas e
acanhadas, na base de alguns blocos. Dado o número de inscrições rupestres
existentes no platô sertanejo, em lajedos separados entre si por poucos
quilômetros de distância, deduz-se que, em um período relativamente antigo, a
região era ocupada por caçadores-coletores. É possível ainda que, em face do
calor dominante por muitas horas no sertão, alguns membros do grupo utilizassem
as cavas estreitas e baixas para abrigo temporário. E artistas primevos,
deitados na base das lajes, por horas a fio, tenham se inspirado a deixar
mensagens pictóricas no teto vazio. Acredita-se que se trata de personagens de
grupos pré-cerâmicos, viventes no mundo rústico de caatingas dotadas de rio
intermitentes sasonários. A interpretação das inscrições é tarefa especializada
de arqueólogos cientificamente preparados e
culturalmente sensível. De nossa parte, estamos interessados em
interpretar os sítios de tais lajedos emergentes no dorso suave das colinas
sertanejas, nos municípios atuais de Piau e Piranhas (Alagoas). A raspagem
feita no teto das lapas graníticas, para facilitar a feitura das inscrições,
possibilita inferir de que se trata de representantes de culturas líticas, provavelmente pré-cerâmicas. A qualidade das
tintas de origem vegetal, de cor vermelha, possibilitou a preservação esmaecida
das inscrições por alguns milênios. Nos arredores dos lajedos não foi
encontrado, até hoje, porém, nenhum jazigo dotados de artefatos ou ossadas,
nada se podendo saber das simultaneidade ou não da época dos homens dos lajedos
em face dos homens dos terraços beiradeiros no fundo do canyon.
A título de especulação pura, e talvez simplória, podia
se pensar que as inscrições feitas em vermelho vivo - e, atualmente bastante
esmaecidas - correspondam aos primeiros tempos das culturas líticas. E que,
talvez, elas tenham sido elaboradas pelos primeiros grupos de
caçadores-coletores, procedentes de sertões distantes, já plenamente afeiçoado
à rusticidade das caatingas. Nesses sentido, poderiam ter sido os antepassados
dos grupos humanos que se instalaram nas praias - terraços no fundo do canyon Paulo Afonso/Xingó/Piranhas. Mas,
talvez, os pintores das lapas dos lajedos do alto sertão alagoana tenham sido
desgarrados ou trânsfugas da população vivente nos privilegiados terraços
rampeados do fundo das gargantas d São Francisco. Nada nos impede de pensar
que, talvez os homens das lapas de lajedo não passassem de meros posterios ou
caçadores solitários, vivendo de
atividades complementares para defesa ou abastecimento dos habitantes
sedentários, instalados desde a milhares de anos no fundo do torrentoso canyon do rio de águas perenes, vindos
de muito longe.
PESSOAL TÉCNICO ATUAL DO PAX
ARQUEÓLOGOS
-
Maria
Cleonice de Souza vergne
-
Suely
Cristina Albuquerque d lina
-
Ana
Lúcia do Nascimento Oliveira
-
Suely
Gleide Amâncio da silva
-
Henrique
Alexandre Pussi
-
Cistiane
Cerqueira do Nascimento (Assessoria)
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